Tempos voláteis

Os tempos que correm estão muito voláteis. Um exemplo disso mesmo é o meu texto publicado no mês passado, que versava sobre a importância da vacinação e do papel que os turistas britânicos teriam sobre o futuro do Algarve. Escrito e enviado para a redação, o texto rapidamente ficou ultrapassado, numa questão de horas, quando foi anunciado o fim do corredor aéreo do Reino Unido com Portugal. Num ápice, milhares de reservas foram canceladas e regressos foram abruptamente antecipados pelos turistas que já cá estavam. Apenas alguns dias antes, recebíamos alegremente os turistas ingleses para a final da UEFA Champion’s League; havia também fluxo turístico para o Algarve e tudo parecia encaminhar-se alegremente para um verão razoável, que pudesse saciar o sector turístico, que por tantas privações passou no último ano e meio.

Tudo muda, e nesta altura, muda rapidamente. O número de casos de COVID-19 em Portugal começou a subir quase exponencialmente, especialmente os da nova variante Delta. Como consequência e para adicionar insulto à injúria, também a Alemanha anunciou a interdição de viagens de e para o nosso país. Sendo o mercado alemão um dos maiores responsáveis pelo turismo no Algarve, este choque imprime maior impacto, quando em conjunto com as reticencias britânicas. Igualmente grave é o facto desta interdição acontecer ao arrepio do acordado entre os países europeus para o uso do chamado “certificado digital COVID-19”, criado especificamente para poder impedir interdições generalizadas de viagens. Aparentemente, a articulação europeia é algo que pode ser feito “á la carte” pelo governo alemão, com consequências mais gravosas no que toca à previsibilidade das viagens.

O espírito do tempo, o Zeitgeist, como os alemães tão eloquentemente o colocam, é de volatilidade e incerteza extrema. E volatilidade é perigosa para o negócio.

Se ninguém consegue prever razoavelmente o que irá acontecer amanhã, não há negócio: férias não são marcadas, voos não se fazem, turismo não acontece. Para o Algarve, sempre tão dependente do turismo, com um mercado de trabalho precário e sazonal e com empresas muito descapitalizadas, e com as poupanças dos consumidores depauperadas, as consequências são imponderáveis. Torna-se imperativo um pacote de ajuda específico para o Algarve, por parte do Estado, com a intenção de estancar a possível destruição de emprego e a possível cadeia de falências que surgirão, caso este verão não corra de maneira satisfatória.

As previsões para este verão não são, de todo, auspiciosas. Os números da COVID-19 descolaram no Algarve; na recente revisão dos concelhos em matéria de desconfinamento estão incluídos vários concelhos algarvios: Silves, Lagoa, Lagos, Faro, Portimão e São Brás de Alportel, como concelhos de risco elevado; e Albufeira, Loulé e Olhão, como concelhos de risco muito elevado.

O caso particular de Silves significa um retrocesso no processo de desconfinamento que se desenvolvia há algum tempo, com implicações negativas para o comércio e a economia local. Neste e em tantos outros casos relativos à pandemia de COVID-19, a solução não é fácil. A melhor arma que temos é a vacinação e é bom que esta continue a bom ritmo. De resto, o melhor é mesmo tomar as devidas precauções.

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