Felicidade

Sou feliz quando extravaso as minhas fronteiras.
Sou infeliz quando se retraem as minhas fronteiras.
Na generalidade dos dias, meses e anos, sou eu, nas minhas fronteiras, nem feliz nem infeliz, fazendo o que deve ser feito, segundo o meu saber e as minhas competências.
Se vivo ou trabalho materializando as minhas utopias, aí não conta, porque sou feliz.

Este extravasar ou retrair dos limites, acontece, por vezes, inesperadamente, em pequenos instantes de felicidade ou de infelicidade, raramente previsíveis.
Por isso, vive-se a felicidade ou a infelicidade no reviver desses momentos ou na rememoração de tempos em que hipoteticamente fomos felizes ou fomos infelizes.

A sociedade capitalista (seja do capital ou do estado) alimenta esta dualidade de (in)felicidade na busca de maior lucro, criando em nós uma necessidade de consumo para ser feliz ou para ser infeliz ou, pelo menos, para ser tão feliz ou infeliz quanto os outros.

A indústria da felicidade, com os carros e as roupas (de marca), os acontecimentos e práticas sociais (da sociedade), a vida no céu. A indústria da infelicidade, com a comunicação social (das tragédias), a religião (das promessas), a vida no inferno. A vida, a felicidade e a infelicidade prisioneiras do consumo de bens e de serviços. A vida, sem felicidade nem infelicidade, na normalidade dos dias, bem dispensa as promessas de céu e de inferno, mas não dispensa a promessa de uma terra global melhor, em que todos nós tenhamos a possibilidade de ser felizes.

Estamos obrigados a ser felizes?

Haverá alguém, como eu, que não rememora tempos absolutos de felicidade ou de infelicidade?
Não idealizo uma infância feliz nem uma adolescência, juventude ou idade adulta feliz, mas também não idealizo uma infância infeliz ou uma adolescência, juventude ou idade adulta infeliz. O que relembro é uma vida normal, uma normalidade sem excessos, com hipotéticos momentos de felicidade e, porventura, com momentos de infelicidade. Na normalidade das rotinas diárias, assumo a banalidade dos momentos, tornando as minhas ações em ações necessárias à continuidade dos tempos.

Não sou feliz nem infeliz, tem dias.

Seremos todos assim? Existirá, de facto, a saudade?
Não sinto saudade, não tenho saudade de nenhum dos tempos que passaram, tenho apenas saudade do tempo futuro. E por ter saudade do tempo futuro, idealizo uma nova urbanidade para a minha cidade no tempo presente. Idealizo locais e momentos de felicidade. Idealizo memórias sobre as casas, as ruas, os espaços públicos em que possa afirmar: aqui fui feliz. Velhos ou novos espaços em que serei feliz ou infeliz no caso da infelicidade me fazer feliz.

Idealizo, mas não encontro. Nada na cidade me faz verdadeiramente feliz. Mas isso sou eu, que vivo habitualmente entre a felicidade e a infelicidade.

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