Universos Paralelos

Há doze anos fui, em trabalho, a Lisboa, no dia vinte e quatro de abril. Regressei de autocarro, num horário e percurso inusual, passando por algumas povoações, como Ourique, antes de aportar no Algarve, concretamente em Lagoa. Sentado num dos lugares primeiros do autocarro, pairei sobre as localidades, como se existissem dois universos paralelos, o universo do piso do autocarro e, lá em baixo, o universo da realidade concreta das gentes que permanecem nestes lugares. Uma sensação de voo, sublevado pelas autoestradas e pelo próprio meio de transporte, criou em mim um sentimento de não pertença ao mesmo mundo dos habitantes que percorriam as cidades e as localidades de permeio entre a capital e o meu destino de regresso.

O trânsito na capital adivinhava o feriado, o fim de semana prolongado. O autocarro caminhava lentamente para sul. A ponte ficava cada vez mais distante, sinalizando a ligação entre os dois territórios contínuos: a grande cidade e as autoestradas. As luzes do autocarro sobrepunham-se gradualmente ao entardecer avermelhado do horizonte. Os passageiros dormitavam ou mantinham-se silenciosamente acordados. O autocarro retornava até ao último apeadeiro deste percurso, que fora o primeiro na viagem da manhã, regressava à banalidade dos lugares com histórias menores. Passei o dia na capital, acreditando que aquele dia era especial, que anunciava um acontecimento extraordinário, mas nada de relevo aconteceu, nada de relevo me aconteceu. Apesar das vozes, as pessoas pareciam-me cinzentas, agastadas, fechadas em si, sem ânimo para um novo alvorecer, sem ânimo para ascender a outra dimensão.
A distância da capital aumentou substancialmente e, já noite, o autocarro entrou num largo em Ourique. Uma noite quente de abril, com as gentes da terra circulando pelo largo. Uma imagem cinematográfica, de um filme italiano, em que o triunfante regressa ao seu lugar de origem, para vingar a denegação.

Voei sobre o largo, avistando as gentes e o baile, comemorativo da data festiva, no salão do quartel de bombeiros. Poucos casais dançavam, na improvisada pista, num ritmo lento, numa outra realidade. Um mundo que existia paralelo ao meu, sem qualquer ponto de contacto, para além, contudo, de uma data precisa de abril.

Fiz um voo paralelo aos campos de estufas de Odemira, numa imposição agrícola sobre o espaço ambiental, em que, do alto, se observam ganhões (trabalhadores pagos ao dia), como no velho Alentejo, num verdadeiro enquadramento fotográfico. Idealizo o desenvolvimento de uma região e de uma economia que exporta frutos vermelhos para uma europa fria. Quem me dera ser jornalista, para perguntar aos produtores agrícolas, muito preocupados com as suas produções, as suas exportações e a economia dos milhões, se estão, de igual forma, atentos e preocupados com as condições de trabalho, de vida e de humanidade da mão de obra importada de outros universos, tão paralelos como os nossos. Tão paralelos como os trabalhadores migrantes agrícolas, da construção civil e de serviços domésticos, no nosso concelho de Silves.

Sou um privilegiado, trabalho num único lugar, em que existe uma junção dos diferentes universos paralelos, num só mundo, a educação presencial. É verdade, no ensino superior ainda não é assim.

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