Confinamento

As minhas ideias para uma crónica estão confinadas. Não tenho saído de casa, exceto para me abastecer de bens alimentícios. A cidade, particularmente a baixa comercial, ainda está mais deserta do que num domingo de verão, o tempo ainda está invernoso, por isso não tem sido muito difícil hibernar (ou invernar) no meu casulo. Mesmo nestas condições, verdadeiramente, já estou a ficar farto. Vale a pena mais um mês de esforço, para conseguirmos uma primavera e um verão de desconfinamento, com a utilização de máscaras e restantes cuidados de distanciamento social. Acredito que podemos ter no final de verão e no outono, devidamente vacinados, a retoma das nossas vidas de todos os dias, apesar, bem sei, de que nada será como dantes, até ficar no esquecimento de cada um de nós.

O esquecimento é poderoso, apaga, reescreve, embeleza os momentos da tragicomédia que são as nossas vidas. Aguentar março é um ato revolucionário, viver abril e maio é uma revolução.

Por falar em esquecimento, penso num dos seus antónimos, recordação. Uma das coisas que mais me intrigam é porque é que existem acontecimentos aparentemente banais que recordo e outros não. Um dos acontecimentos que revivo foi ter ido ver o festival da canção na Sociedade Gomes Vilarinho, junto a minha casa, no ano em que ganhou a Tonicha, com Menina do Alto da Serra (música de Nuno Nazareth Fernandes e letra de José Carlos Ary dos Santos), em 1971, fez este ano cinquenta anos. Eu tinha oito anos.
Não tenho memórias concretas dos festivais posteriores, de 72 a 74, apesar de, em princípio, os ter visto, mas deste, tenho uma certeza de ter assistido até à divulgação da vitória. Terá acontecido algo extraordinário? Porventura foi o primeiro acontecimento televisivo, da época, a que assisti e por isso ficou na minha memória e não foi votado ao esquecimento. Daqui a cinquenta anos não vou recordar nada, mas existirá alguém que irá recordar um pequeno grão da sua infância e se questionará sobre o porquê dessa migalha ter sobrevivido ao esquecimento. Somos questionadores, somos humanos.

A situação de ensino remoto tem gerado um trabalho suplementar, inexistente nas aulas presenciais, para adequação das dinâmicas de interação social à realidade dos ecrãs do computador e à inexistência do professor e dos alunos no mesmo espaço de sala de aula. O ensino a distância é uma treta, contudo existem situações em que pode ser uma boa alternativa. Imagina que pretendes fazer um curso pontual sobre uma temática e que esse curso só acontece em Lisboa. Então terias duas possibilidades ou encontravas um grupo de pessoas interessadas no Algarve para fazer o curso e convencias o formador a vir ao Algarve ou inscrevias-te em Lisboa e ias lá regularmente, por exemplo uma vez por semana. Agora, existe uma outra possibilidade, um curso a distância que fazes a partir de tua casa, desde que tenhas, naturalmente, as condições técnicas exigidas. Esta inserção tecnológica vai ficar para os próximos tempos, mas a educação formal, regular, tem de ser presencial, com valorização das interações e do trabalho colaborativo.

O isolamento não é revolucionário, como diz o educador Paulo Freire, ninguém se liberta sozinho.

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