O João

O JOÃO

Como é que alguém que cresce perto do horror virá a ser pacífico, generoso, tolerante, compassivo, profundamente humano?
O João – assim o tratavam, Antero, Eça, Camilo e tantos outros –, continua a revelar-se o centro de um mundo bom a expandir-se de si. Deste mundo, a infância e adolescência explicam a idade madura e o reconhecimento unânime de uma nação.

O João nasceu num lugar que nem aldeia era, S. Bartolomeu de Messines. Foi-lhe aposto nome de santo. Só podia. Viu a luz no dia em que um deles, beatificado e canonizado, nasceu e morreu. S. João de Deus, 8 de Março (Montemor-o-Novo, 1495 – Granada, 1550).

Quando o João deslizou da mãe, Isabel Gertrudes, em 1830, D. Miguel tinha regressado do exílio, dois anos antes. Trazia fome de vingança, em nome do trono e do altar. E ganhou, no Algarve, a veneração cega de um destemido apoiante. O Remexido tinha mudado há pouco de fidelidade. De liberal, bem afazendado, passara a miguelista duro de roer.

S. Bartolomeu de Messines, Silves e o Algarve transformam-se, não tarda, em corros de sangrentos combates. O João cresce a inalar o cheiro a pólvora que passava pelas frinchas das portas de casa, ali na Rua da Estalagem.
Quando as forças liberais desembarcam no Algarve, o João tem três anos. O Remexido já está à frente dos Terços das Ordenanças de Silves. Tem 345 homens sob comando. Muitos são de Messines e redores. Estão prontos a matar e a morrer por D. Miguel.
Liberais e miguelistas arregimentam quem conseguem. Nem todos sabem ao que vão e de que lado estão. Assanhados, todos e impiedosos a maior parte. Quem se refugia em casa, enfeza-se na angústia. A morte assoma e nunca se anuncia. Uma desgraça traz outra atrás. O colera morbus, neste ano de 1833, mata ainda mais do que todas as clavinas e espingardas que vomitam metralha a fumegar.

O João acaba de fazer quatro anos. Em Abril de 34, as tropas liberais, sob as ordens de Sá da Bandeira, são surpreendidas no inferno de Vale da Mata. 1.000 baionetas e 80 lanceiros não conseguem travar a arremetida devastadora de 5.000 soldados de infantaria e 300 cavaleiros, a mando do brigadeiro Cabreira, acolitado pelo Remexido. Na atroz fuzilaria e debandada para Silves, a serra ficou entulhada de cadáveres. 90 mortos, incontável número de feridos, 60 prisioneiros de guerra. O Remexido rejubilou. Os liberais, como o pai do João, Pedro José Ramos, temeram ainda mais pelo futuro.
A capitulação de D. Miguel, na Convenção de Évora Monte, em 26 de Maio, não sossegou as ganas dos miguelistas. O João, já com seis anos, estava ali muito perto quando o Remexido, à frente de cinquenta homens, entra pela Pontinha, num destemido ataque a S. Bartolomeu de Messines, onde tinha toda a família. Maria Clara, a sua mulher e os filhos, estão em casa, transidos de medo e talvez de esperança. Violentíssima espingardearia. Onze mortos, trespassados pelas balas ou calcinados no incêndio do quartel que ficou em escombros, até ninguém se lembrar onde ficava.

D. Miguel, já no exílio definitivo, promove o Remexido a governador do Reino do Algarve e a comandante interino do Exército de Operações do Sul. O, agora brigadeiro, não consegue deixar de andar andrajoso e esfomeado, como os seus homens, em surtidas de guerrilha pelos serros, trazendo pânico e destruição, impedindo lavoura, ofícios, comércio e, já agora, o ensino das primeiras letras. De tal modo que, Pedro José Ramos, agora presidente da Camara de Silves, quer erguer um muro no adro da Igreja para proteger o lugar santo e as gentes apavoradas. Enquanto alguns liberais desejam pegar fogo à serra, para acabar de vez com as tormentosas investidas do Remexido.

Aos 8 anos, o João assiste, entre mais de mil pessoas pelas ruas de Messines, à festa lúgubre de um cortejo de vitória. O Remexido, algemado, montado num burro, entre urros, cuspidelas e música marcial, é vilipendiado a caminho de Faro. Tinha sido capturado junto ao Monte Grou, após intenso tiroteio. Não teve mais sorte do que 56 dos seus homens, ali abatidos ao efectivo. Julgado em conselho de Guerra, é executado por fuzilamento no Campo da Trindade, em Faro.

A insegurança e o medo continuaram, praticamente até o buço do João espigar, já com treze ou catorze anos. Confinado viveu na infância e parte da adolescência.
Soltou-se, depois, nos longos doze anos de boémia coimbrã e de estudo, pelo meio, claro. Levou dez anos para chegar a doutor, assim tratado por quem o não conhecia.

Em Coimbra desprendeu de si um talento sem freio. A sua poesia, grande parte de improviso, era colhida avidamente e passada ao papel pelos amigos. Na música com a sua viola toeira para a qual criou um método de afinação conhecido por “afinação João de Deus”, ou natural menor ,criava cantigas com poemas seus que ecoavam pelas noites avinhadas do Mondego. No desenho, sobre papelotes avulsos ou a cal branca das paredes, denotava um jeito que a indolência não o deixou alongar. O humor, a ironia e o lirismo contagiavam quem o ouvisse e quem o lesse.

No regresso a São Bartolomeu de Messines, Silves e Vila Nova de Portimão pasmou, viveu e conviveu com os seus amigos. A um entusiasmo de dois deles, José António Garcia Blanco e Domingos Leonardo Vieira, não soube dizer que não, a sua palavra mais difícil de soletrar. Sentaram-no nas Cortes, em Lisboa, como deputado. Lá permaneceu de bico calado. Ausentava-se, dormitando ou não comparecendo. O tédio durou poucos meses.

Libertou-se para voltar a confinar-se, como nos duros tempos da infância e primeira juventude. De Lisboa já não arredou pé. Não tardou a deixar-se desencaminhar ou a ser encaminhado. Guilhermina das Mercês, filha de um italiano e de uma portuguesa, dezanove anos mais nova, atou-o a um lar. A sua “mercê das Mercês”, como gostava de a ameigar, deu-lhe quatro filhos e um poiso definitivo. Aqui recebia os amigos, ensinava crianças e trabalhadores analfabetos a ler, instruía professores no seu método, escrevia, traduzia, respondia à infinita correspondência de admiradores, instituições, teatros, escolas.

Os dias passaram a ser cheios de letras, silêncios cismados e gritinhos da filharada. Era inútil tentar sacá-lo de casa. Daqui socorria a quem lhe pedia, fosse da família em Messines, de um amigo agrilhoado na prisão do Limoeiro, de outro que tinha sonhos de grandiloquência renascentista, à beira do rio Lima, e que nunca seria o João a deixar que se esborrachasse na realidade.

O João deixou-se cercar pelos filhos e por uma missão magnânima que carregou, com entusiasmo, até ao fim dos seus dias. A Cartilha Maternal e a Associação de Jardins Escolas João de Deus, fundada em 1882 com Casimiro Freire, seu bom sogro, apesar de treze anos mais novo, para libertar os mais humildes das masmorras da miséria e do analfabetismo. Trocou a pulsão irreprimível da poesia e da escrita literária por este encargo para toda a sua vida e muito mais além.
Não é fácil encontrar em João nevos imperfeitos. A não ser um que lhe abreviou os dias, num sofrimento indizível, o tabaco que fumegava a todo o instante e lhe provocou a miocardite de que padeceu por amargos anos. Carlos Tavares, o médico e amigo que o velou até ao último suspiro, a desfazer-se em lágrimas exclamou: “- Morreu pelo que tinha de melhor – o coração!”

Faltam apenas nove anos para o João completar dois séculos. Continua a elevar-se e a elevar-nos num halo luminoso, se tivermos a bondade de o escutar. Seu nome e legado estão bem vivos por todo o país e no mármore dos nossos heróis, o Panteão. A sua grandeza, ainda com muito por revelar, tem de continuar a ser carinhosamente abarcada. A sua e nossa inteligência e o seu e nosso coração poderão ajudar-nos a crescer um pouco, neste tempo de estranho egotismo e angústia. E deixando de temer o outro que tarda em revelar-se sem as máscaras de uso e costume.

Veja Também

Terra Ruiva, Duas Décadas +1

TUDO é veloz… Creio ter publicado 200 artigos, da minha lavra, no  mensário  da minha …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *