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Opinião

Esquentador

António Guerreiro
Última Atualização: 2021/Jan/Ter
António Guerreiro
5 anos atrás
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Quando eu era criança vivia, junto aos Paços do Concelho, na sonante rua Dr. António de Oliveira Salazar. A rua era central, mas a casa era modesta e não tinha aquilo que hoje se entende por casa de banho, muito menos esquentador. O esquentador é um dos eletrodomésticos essenciais, na atual comodidade das pessoas e famílias, apesar de desaparecer discretamente nas cozinhas, dá calor aquele espaço único destinado ao banho, na dita casa, seja de água quente ou de água tépida. A água fria é apenas uma alternativa.

Claro que eu tomava banho, durante o fascismo, mas para mim o esquentador foi uma das conquistas de Abril. Foi com Abril que gente de fraca condição económica, social e cultural se juntou e construiu habitações condignas num bairro social, no concreto caso, no Bairro do Progresso, em Silves, com casa de banho e, fundamental, com esquentador. Como diz José Afonso, n’Os índios da Meia-Praia, cada um c’o seu tijolo. Portanto, conheci as vantagens da água quente canalizada, através do esquentador, com dezasseis anos, deixando para trás a alternativa das panelas de água quente, vertidas num balde chuveiro, muitas das vezes muito morna ou quase fria.

Viver numa casa do bairro social, para mim, foi mais gratificante do que viver nas casas operárias da principal rua da urbe, batizada com o nome do ditador. Tanta miséria apadrinhada pelos do regime numa ilusão de caridade. Se algum novo fascista te ilude com a divisão das pessoas entre os bons e os maus e associa estes últimos (os maus) aos bairros sociais, aos divergentes na sua forma de viver ou de pensar, nunca viveu do mesmo lado deste imenso povo português ou, se o viveu, não compreendeu que a verdadeira missão do estado é social.

É ao estado que compete assegurar a diminuição das desigualdades, protegendo os mais fracos e humildes, mas também garantindo uma sociedade plural e solidária, capaz de integrar todos e qualquer um dos residentes em Portugal e dos portugueses residentes no mundo. Integrar todos, garantindo um nível mínimo de bem-estar social.

Nestas eleições presidenciais irei votar à esquerda, no candidato que, sem saber, está a defender os esquentadores. Para mim os esquentadores, e não só, são sinónimo de Abril. Apelo ao voto nos candidatos de esquerda ou, em recurso, nos de direita social.

Desejando, em consonância com os tempos da velha, não sei se senhora, um grande balde de água fria ao candidato fascista que se arroga de dividir os portugueses em bons e maus, em puros e impuros, nos seus apoiantes e em todos os outros. O que verdadeiramente ele diz é que, nesta divisão em categorias, iria governar para os seus apadrinhados, legiões de camisas castanhas, controlando as cores que cada um pode ou não pode usar.

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PorAntónio Guerreiro
Natural de Silves, nascido em 1962, é doutor em Educação Matemática, professor e diretor da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve. Os seus interesses atuais nos tempos livres são a escrita, a leitura e a fotografia.
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