O naufrágio do Spryros

Sempre que se falava de tempestades na costa algarvia, o pai não conseguia conter as lágrimas. Na lembrança pertinaz, a noite horrenda. Ficava cabisbaixo. A contemplar as suas mãos exaustas. A agarrar os tufos de cabelo dos dois tripulantes. Não teve forças para os salvar.
Naquela noite de Domingo, 24 de janeiro de 1937, António José saiu de casa, na rua Vasco Pires. Desceu a rua do Forno. Passou à frente da carvoaria do pai, no gaveto da Travessa do Capote com a Rua Gustavo Cordeiro Ramos. Seguiu a caminho da Casa Inglesa. Contava ir tomar uma bica, cavaquear com amigos, jogar uma partida de bilhar.
A notícia brusca estragou-lhe os planos. Um naufrágio estava a acontecer perto da praia do Vau. Em alvoroço, António José, o Abel Silva, o Capitão Mor, o Júlio Bernardo, o Perrolas, o Samúdio, fizeram-se ao caminho. A Casa Inglesa ficou deserta.

Noite de temporal. Mar de fora. Ondas alterosas varriam o convés do Spyros, um vapor de pavilhão grego. O cargueiro de 2108 toneladas de arqueação e 84 metros, navegava de Istambul para Hamburgo. Trazia um frete de trigo e favas. 25 homens a bordo. Passou ao largo de Armação de Pera. A aldeia estava submersa pelo mar que tinha subido dois metros.
À frente da Ponta do Altar, o comandante do Spyros aproximou-se da costa. Pretendia lançar ferro na baía de Lagos. Julgava estar muito perto.
Um golpe de mar desmantelou-lhe o leme. Sem governo, o cargueiro ficou à deriva nas vagas alterosas. Chapou-se contra as rochas, perto do Careanos, o mostrengo deitado que fora um pontão de falésia, entre as casas do avô José Marques e as do Luís Bordas y Marimon.

O pai e o avô conheciam como ninguém aquele pedaço de costa alcantilada. E o chão de mar pejado de escolhos e de peixe, a estender-se até ao longe. O avô tinha ali comprado, em 1923, duas fazendas contíguas, uma delas, com uma frente de mar de duzentos metros.
O avô e o filho varão, António José, lançavam linha, em pacientes pescarias. Ou desciam à praia, na maré baixa, para desembruxar moreias e safios dos buracos da Mesa, do Careanos e de outras rochas mais pequenas.
É dos trechos mais belos da costa algarvia. As águas da chuva esburacando algares. O mar, manso ou enfurecido, a espumar vontades. Mas no belo pode nascer o horror.

As baleeiras do Spyros, lançadas ao mar, espatifaram-se contra os rochedos. Tinham chegado socorros, enquanto o pai e o Abel desciam à praia para o estrafego de salvar vidas com risco da própria. Dezenas de pessoas chegavam em bicicletas, carrinhas, motorizadas, táxis. Debruçavam-se ansiosas sobre a falésia para ver os vultos em desespero.
Uma camioneta, faróis contra o negrume da noite, não conseguia iluminar a desgraça. Gritos e urros medonhos dos náufragos, em várias línguas, elevavam-se na rouquidão do mar assanhado. E os bombeiros, no cimo da arriba, a berrar impotência. E o tempo a esvair-se.

Salvaram-se dezoito marinheiros. Ficaram como destroços inertes sete dos seus companheiros. O pai não conseguiu trazer para terra os dois infelizes que se esvaíram nas mãos tristes do seu corpo ensopado de mar.
Deu tudo de si. E daria a vida para ajudar a salvar aqueles homens de várias nacionalidades. E da mesma pátria, a do infortúnio.
António José tinha vinte e quatro anos. Aquela dor acompanhou-o pela vida adiante. E a culpa a latejar sempre dentro de si. Até ao último sopro. Aos noventa anos de idade.

O Berto o que tem a ver com isto? Muito pouco. Quase nada. Só assomaria doze anos mais tarde. Resvalado pela Laura Teresa, nascida em Vale de Lousas.
O Oliveira, com a sua máquina fotográfica, surpreendeu-o, ali no jardim, em frente do Fraternidade. Tinha quase dois anos. Agarrava-se à perna do pai, não fosse escorregar pelo rio adentro. Ainda não adquirira a certeza de que um homem bom nunca foge.
Talvez, talvez, por isso, as lágrimas do pai nunca se lhe secarão. Enquanto as pálpebras da saudade não se colarem ao silêncio da noite.

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