Ao utilizar este site, concorda com a nossa politica de privacidadePolitica de Privacidade e Termos e Condições.
Accept
Terra RuivaTerra RuivaTerra Ruiva
  • Concelho
  • Sociedade
    • Ambiente & Ciência
    • Cultura
    • Educação
    • Entrevista
    • História & Património
    • Lazer
    • Política
  • Opinião
  • Vida
  • Economia & Emprego
  • Algarve
  • Desporto
  • Autores
    • António Eugénio
    • António Guerreiro
    • Aurélio Cabrita
    • Clara Nunes
    • Débora Ganda
    • Eugénio Guerreiro
    • Fabrice Martins
    • Francisco Martins
    • Frederico Mestre
    • Helena Pinto
    • Inês Jóia
    • José Quaresma
    • José Vargas
    • Maria Luísa Anselmo
    • Maria José Encarnação
    • Miguel Braz
    • Paula Bravo
    • Paulo Penisga
    • Patricia Ricardo
    • Ricardo Camacho
    • Rocha de Sousa
    • Rogélio Gomes
    • Sara Lima
    • Susana Amador
    • Teodomiro Neto
    • Tiago Brás
    • Vera Gonçalves
  • Página Aberta
  • AUTÁRQUICAS 2025
    • AUTÁRQUICAS 2021
  • Edições
Reading: O naufrágio do Spryros
Partilhe
Font ResizerAa
Terra RuivaTerra Ruiva
Font ResizerAa
  • Home
  • Demos
  • Categories
  • Bookmarks
  • More Foxiz
    • Sitemap
Follow US
  • Advertise
© 2022 Foxiz News Network. Ruby Design Company. All Rights Reserved.
Opinião

O naufrágio do Spryros

José Alberto Quaresma
Última Atualização: 2021/Jan/Ter
José Alberto Quaresma
5 anos atrás
PARTILHE

Sempre que se falava de tempestades na costa algarvia, o pai não conseguia conter as lágrimas. Na lembrança pertinaz, a noite horrenda. Ficava cabisbaixo. A contemplar as suas mãos exaustas. A agarrar os tufos de cabelo dos dois tripulantes. Não teve forças para os salvar.
Naquela noite de Domingo, 24 de janeiro de 1937, António José saiu de casa, na rua Vasco Pires. Desceu a rua do Forno. Passou à frente da carvoaria do pai, no gaveto da Travessa do Capote com a Rua Gustavo Cordeiro Ramos. Seguiu a caminho da Casa Inglesa. Contava ir tomar uma bica, cavaquear com amigos, jogar uma partida de bilhar.
A notícia brusca estragou-lhe os planos. Um naufrágio estava a acontecer perto da praia do Vau. Em alvoroço, António José, o Abel Silva, o Capitão Mor, o Júlio Bernardo, o Perrolas, o Samúdio, fizeram-se ao caminho. A Casa Inglesa ficou deserta.

Noite de temporal. Mar de fora. Ondas alterosas varriam o convés do Spyros, um vapor de pavilhão grego. O cargueiro de 2108 toneladas de arqueação e 84 metros, navegava de Istambul para Hamburgo. Trazia um frete de trigo e favas. 25 homens a bordo. Passou ao largo de Armação de Pera. A aldeia estava submersa pelo mar que tinha subido dois metros.
À frente da Ponta do Altar, o comandante do Spyros aproximou-se da costa. Pretendia lançar ferro na baía de Lagos. Julgava estar muito perto.
Um golpe de mar desmantelou-lhe o leme. Sem governo, o cargueiro ficou à deriva nas vagas alterosas. Chapou-se contra as rochas, perto do Careanos, o mostrengo deitado que fora um pontão de falésia, entre as casas do avô José Marques e as do Luís Bordas y Marimon.

O pai e o avô conheciam como ninguém aquele pedaço de costa alcantilada. E o chão de mar pejado de escolhos e de peixe, a estender-se até ao longe. O avô tinha ali comprado, em 1923, duas fazendas contíguas, uma delas, com uma frente de mar de duzentos metros.
O avô e o filho varão, António José, lançavam linha, em pacientes pescarias. Ou desciam à praia, na maré baixa, para desembruxar moreias e safios dos buracos da Mesa, do Careanos e de outras rochas mais pequenas.
É dos trechos mais belos da costa algarvia. As águas da chuva esburacando algares. O mar, manso ou enfurecido, a espumar vontades. Mas no belo pode nascer o horror.

As baleeiras do Spyros, lançadas ao mar, espatifaram-se contra os rochedos. Tinham chegado socorros, enquanto o pai e o Abel desciam à praia para o estrafego de salvar vidas com risco da própria. Dezenas de pessoas chegavam em bicicletas, carrinhas, motorizadas, táxis. Debruçavam-se ansiosas sobre a falésia para ver os vultos em desespero.
Uma camioneta, faróis contra o negrume da noite, não conseguia iluminar a desgraça. Gritos e urros medonhos dos náufragos, em várias línguas, elevavam-se na rouquidão do mar assanhado. E os bombeiros, no cimo da arriba, a berrar impotência. E o tempo a esvair-se.

Salvaram-se dezoito marinheiros. Ficaram como destroços inertes sete dos seus companheiros. O pai não conseguiu trazer para terra os dois infelizes que se esvaíram nas mãos tristes do seu corpo ensopado de mar.
Deu tudo de si. E daria a vida para ajudar a salvar aqueles homens de várias nacionalidades. E da mesma pátria, a do infortúnio.
António José tinha vinte e quatro anos. Aquela dor acompanhou-o pela vida adiante. E a culpa a latejar sempre dentro de si. Até ao último sopro. Aos noventa anos de idade.

O Berto o que tem a ver com isto? Muito pouco. Quase nada. Só assomaria doze anos mais tarde. Resvalado pela Laura Teresa, nascida em Vale de Lousas.
O Oliveira, com a sua máquina fotográfica, surpreendeu-o, ali no jardim, em frente do Fraternidade. Tinha quase dois anos. Agarrava-se à perna do pai, não fosse escorregar pelo rio adentro. Ainda não adquirira a certeza de que um homem bom nunca foge.
Talvez, talvez, por isso, as lágrimas do pai nunca se lhe secarão. Enquanto as pálpebras da saudade não se colarem ao silêncio da noite.

Total Views: 1
Dia Mundial de Mim
Imigração: entre preconceitos e realidade
Meu rico verão
Iludir-se
Ser Pai/ Ser Mãe Hoje – Entre o mundo digital e a responsabilidade de educar
TAGGED:José Alberto QuaresmanaufrágioSpyros
Partilhe este artigo
Facebook Email Print
PorJosé Alberto Quaresma
José Alberto (de Oliveira) Quaresma nasceu em Portimão. Licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Prosseguiu estudos em História Moderna e Contemporânea, na Universidade de Paris- Sorbonne (Paris IV), com Pierre Chaunu e André Corvisier e em História das Mentalidades Religiosas, no Collège de France, com Jean Delumeau. Foi docente do ensino secundário e formador de professores. Publicou artigos em revistas científicas e apresentou em vários fóruns comunicações sobre História, História das Mentalidades, Sociedade e Sistema Educativo. Tem, como colunista, colaboração dispersa por vários periódicos, nomeadamente, O Independente, Público, Expresso, Correio da Manhã, Domingo Magazine. Obteve o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1989), pelo livro A Pose Extática, (Afrontamento). Publicou Ecolalia, poesia (Vega) e, na mesma editora, Direito ao Erro – A Batalha da Educação em Portugal. Foi autor de «Falta de Castigo – O Blogue da Educação e da Falta Dela», no semanário Expresso, entre 2008 e 2014. Coordenou as Comemorações do 122º Aniversário do Nascimento de Manuel Teixeira Gomes (1982-1983). Foi comissário para as Comemorações Nacionais dos 150 Anos de Manuel Teixeira Gomes (2010). É autor de Manuel Teixeira Gomes – Biografia (Imprensa Nacional – Casa da Moeda / Museu da Presidência da República
Artigo Anterior COVID-19 – Algarve tem 143 novos casos e mais 1 óbito
Próximo Artigo Receitas do MasterChef Sénior apresentadas online
Sem comentários

Deixe um comentário Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Últimas

Beatriz Cabrita apresentou o seu novo livro em Messines
Cultura Sociedade
Corte de trânsito e de água em Armação de Pêra
Concelho
Entrevista a Fábio Antão, presidente da Junta de Freguesia do Algoz – “Tenho uma visão para o Algoz”
Entrevista Sociedade
Marco Jóia é o novo presidente da Junta de Silves
Política Sociedade
Fora do Rascunho – Música & Poesia ao vivo, no Parque do Enxerim
Cultura Sociedade

– Publicidade –

Jornal Local do Concelho de Silves.

Links Úteis

  • Notícias
  • Estatuto Editorial
  • Ficha Técnica

Publicidade

  • Publicidade & Assinaturas
  • Conteúdo Patrocinado

Info Legal

  • Contactos e Info Legal
  • Termos e Condições
  • Politica de Privacidade

Siga-nos nas Redes Sociais

© Copyright 2025, Todos os Direitos Reservados - Terra Ruiva - Created by Pixart
Ajustes de acessibilidade

Com tecnologia de OneTap

Durante quanto tempo queres ocultar a barra de acessibilidade?
Duração de ocultação da barra
Perfis de acessibilidade
Modo de Deficiência Visual
Melhora os elementos visuais do site
Perfil Seguro para Convulsões
Remove flashes e reduz cores
Modo Amigável para TDAH
Navegação focada, sem distrações
Modo de Cegueira
Reduz distrações, melhora o foco
Modo Seguro para Epilepsia
Escurece cores e para o piscar
Módulos de conteúdo
Tamanho do ícone

Padrão

Altura da linha

Padrão

Módulos de cor
Módulos de orientação
Welcome Back!

Sign in to your account

Username or Email Address
Password

Lost your password?