O esgoto de Silves

Escrever o texto do mês de outubro, colocou-me um dilema inicial: quando encaramos algo mau é preferível ignorar ou combater? Sendo que, neste caso, ao denunciarmos estamos simultaneamente a divulgar… Esta tem sido uma questão debatida nas redes sociais a propósito de ideias fascistas que estão a ganhar expressão na sociedade. Quando alguns as denunciam publicamente, logo outros dizem que, com esta atitude, só estão a divulgá-las ainda mais, ao arrepio da intenção original.

Dando razão a uns e a outros, porque não está no meu feitio nem na minha consciência ficar calada perante o que considero errado, mas também porque não pretendo ser veículo, passivo ou ativo, de transmissão de ideias contrárias às minhas convicções, fiquei dividida- escrevo ou não escrevo? Dou importância a quem se movimenta no esgoto?

Acabei por decidir escrever. Até porque o fedor que este tema espalha não me deixa grande alternativa. Acontece então, e muitos leitores já terão dado por isso, que surgiram no Facebook algumas páginas dedicadas ao concelho de Silves, que tentam passar por páginas informativas – uma delas até tem “Informa” no seu nome. Acontece porém que têm caráter anónimo e é a partir dessa condição que se dedicam a criticar instituições e pessoas. Surgindo estas páginas a um ano das eleições autárquicas é óbvio o que pretendem e quem servem.

Em muitas campanhas eleitorais circularam no concelho folhetos e cartas anónimas, sobre candidatos e partidos políticos. Não é novo este fenómeno da crítica rasteirinha…. Mas tinha de haver alguém suficientemente motivado para escrever, imprimir, suportar a despesa e ter capacidade de distribuição. O que reduzia substancialmente a circulação e o alcance de tais textos. Os blogues na internet elevaram a questão a outro patamar, embora o objetivo fosse o mesmo: divulgar afirmações sem provas, meias mentiras/meias verdades, calúnias e opiniões sem dar qualquer hipótese aos visados para se defenderem. Ainda assim, a circulação continuava a ser relativamente limitada. Hoje em dia, com o Facebook e os seus milhões de utilizadores, este fenómeno ganhou uma dimensão assustadora, da qual todos já ouvimos falar.

As fake news estão aí, para por à prova a nossa capacidade crítica, na mesma proporção que as páginas anónimas questionam o nosso caráter. Há quem argumente com a liberdade de expressão o seu direito a existir. Um argumento muito perigoso pois coloca no mesmo patamar meios de comunicação legítimos, que publicam factos que podem ser escrutinados e opiniões devidamente identificadas, com publicações anónimas, afirmações não confirmadas e opiniões que não têm cara.

Atrás de um teclado anónimo, sem se responsabilizar pelo seu discurso dúbio, na maior parte das vezes falso e frequentemente venenoso, os autores destas páginas não me merecem qualquer respeito. Conheço-os desde sempre, pessoas assim sempre existiram na História e na história pessoal de todos nós… são aqueles que se escondem na sombra para tentar alcançar o que na claridade não têm coragem de assumir…

Combater esta tentativa de fazer passar por informação aquilo que não o é; combater quem tenta enganar cidadãos menos habilitados a distinguir entre publicações legítimas e páginas anónimas, é uma obrigação de quem dirige um jornal com informação – com factos passíveis de serem comprovados, com fontes identificadas e que responde na justiça por falsidades que venha a publicar. E um jornal com muita opinião – mas toda ela identificada, aberta, com os rostos dos seus autores. Num exercício de cidadania plural e contraditório em que cada um é o que é.

Desmascarar e combater esta praga é uma obrigação de qualquer cidadão. E é uma obrigação acrescida de pessoas que na nossa comunidade exercem cargos de responsabilidade, nas autarquias ou na sociedade civil. Têm obrigação de não lhes dar força, de não partilhar as suas publicações, até de desmentir o que sabem ser falso. Sei que muitos não pensam assim…

Compactuar com a calúnia e com a crítica sob anonimato é tolerar a cobardia. No caso destas páginas orientadas apenas para o bota-abaixo de políticos eleitos pela maioria da população, é também contribuir para aquela perniciosa ideia de que a partir do momento em que és autarca estás sujeito a ser caluniado e humilhado de todas as formas… O que por arrasto conduz a que a política em exercício seja cada vez menos apetecível para gente competente. O que diminui e enfraquece as instituições democráticas e a própria democracia (e não, isto não é um cliché, é um perigo real)…

Corre em Silves um enorme esgoto, via Facebook, nas páginas do Silves Informa, A revolta do povo de Silves, A voz do povo de Silves… E se estas forem denunciadas ao Facebook e apagadas, novas surgirão no seu lugar, já se sabe que é mesmo assim…
Há muito que analistas chamam a atenção para o “enorme esgoto” em que o Facebook corre o risco de se tornar, com a quantidade de mentiras, falsidades, comentários maldosos que por ali circulam. Em Silves já temos o nosso próprio esgoto. Fantástico!

P.S. O meu nome já foi citado nalgumas dessas páginas. Só um recado: não contarão comigo para responder a anónimos.

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