Eventos Virais

No mês passado, neste espaço, tratei do tema dos corredores aéreos e da sua importância para o turismo do Algarve. Hoje, abrem-se estes “corredores” entre os países, que não são mais do que acordos bilaterais, de forma a permitir os fluxos de pessoas e bens. Porém, as notícias não são animadoras; devido aos recentes resultados das infeções de Covid-19 no nosso país, estamos a ficar de fora das listas de viagens de vários países, visto que estas dependem de condições sanitárias semelhantes entre países. Na altura em que escrevo estas linhas, oito países colocaram um traço nas ligações aéreas com Portugal: Dinamarca, Finlândia, Áustria, Lituânia, Eslováquia, Letónia, Chipre e Malta. Mas o pior é a relutância do Reino Unido, que pondera não criar um “corredor aéreo” com Portugal. E visto que dependemos grandemente do turismo, que representa 14,6% do PIB e emprega cerca de 400.000 pessoas, e que o mercado britânico é o nosso principal cliente, estas não são exatamente boas notícias. Estão em risco 3.3 mil milhões de euros em receitas, o valor que os cerca de 9,4 milhões de turistas britânicos geraram no ano passado. Destes, a região do Algarve recebe cerca de 2.2 milhões de turistas da velha Albion.

Uma ausência de uma ligação à Grã-Bretanha durante os próximos meses teria impactos significativos na sobrevivência do tecido empresarial algarvio e do próprio emprego. Tal não significa que não poderemos receber turistas britânicos; apenas que se teriam de submeter a 14 dias de quarentena quando voltassem ao Reino Unido. E para isso, é preciso que gostem mesmo muito do Algarve e que tenham férias para recuperar das férias. O Algarve arrisca-se a ter de contar somente com o turismo nacional e com a boa vontade dos nuestros hermanos de Espanha para conseguir sobreviver a este annus horribilis.

Os recentes surtos de Covid-19, propiciados por um sentimento de que o desconfinamento que o Governo iniciou se equiparia a uma vitória sobre o vírus, colocaram em evidência que os bons resultados que obtivemos inicialmente face aos restantes países europeus se deveram ao facto de termos entrado coletivamente em paranoia mais cedo do que os outros e não tanto a uma maior ou menor preparação dos nossos serviços de saúde. As medidas de confinamento iniciais retardaram substancialmente os contágios, mas assim que declarámos vitória e iniciámos o desconfinamento, começámos a reparar o quão frágil e precoce foi o clamor.
O desconfinamento explodiu em festas e viagens de férias. Todos nós vimos o fluxo de turistas vindos de Lisboa para o Algarve durante os feriados de Santo António, sem quaisquer das reservas criadas durante a Páscoa. Mas não podemos culpar somente os lisboetas; os algarvios também relaxaram à sombra dos seus sucessos. De repente, surgimos nas estatísticas como o segundo país que apresenta maiores níveis de casos ativos por 100 mil habitantes nas últimas semanas, somente atrás da Suécia, que escolheu negligenciar quaisquer medidas de restrição. Foram recentemente reimpostas medidas mais drásticas nas freguesias mais afetadas de Lisboa, mas o estrago está feito; os surtos em Monchique e Lagos aparentemente tiveram origem em indivíduos oriundos da capital.

Sem o controlo efetivo da pandemia, e sem a redução do número de casos diários de Covid-19, dificilmente poderemos pensar em turismo internacional. O governo e o Turismo de Portugal desdobram-se em reportagens nos media e em campanhas sedutoras a publicitar “The Algarve Looks Good on you”, mas enquanto não conseguirmos apresentar números que indiquem que temos a pandemia controlada, este é dinheiro desperdiçado.

A final eight da UEFA Champion’s League em Lisboa é potencialmente das melhores campanhas publicitárias para o turismo em Portugal. A chegada da Fórmula Um ao Autódromo Internacional do Algarve pode não só abrir uma nova era no desporto automóvel em Portugal, mas também colocar a região do Algarve na rota anual de milhares de aficionados dos bólides. Porém, estes dois investimentos importantes foram decididos antes dos mais recentes resultados de infeções; se as viagens estiverem condicionadas para o nosso país, os resultados financeiros destes eventos serão limitados. E se boa publicidade pode ser um trunfo que desbloqueia um rio de receitas, má publicidade pode destruir a reputação de um negócio. Queremos mesmo que a nossa incapacidade de controlar a Covid-19 seja reportada, em direto, para biliões de pessoas, em direto? Ou agarramos agora este vírus pelos colarinhos e o colocamos no lugar, ou corremos o risco do mediatismo destes eventos nos estragarem não só o turismo deste ano, mas também os dos próximos.

PS: Já depois de ter escrito este artigo, foi noticiado de que efetivamente o Algarve ficaria de fora do corredor aéreo com o Reino Unido, e de que entidade responsável pela Fórmula Um remeteria a decisão de um Grande Prémio no Algarve para mais tarde, consoante o desenvolvimento da pandemia no nosso território. Estas decisões demonstram a importância de levarmos a sério o combate à pandemia; esta batalha não é só pela salubridade e saúde, mas também pela qualidade de vida e pela economia da nossa região e país.

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