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Opinião

Corredores aéreos

António Eugénio
Última Atualização: 2020/Jun/Qui
António Eugénio
6 anos atrás
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Ao fim de alguns meses começa-se a dissipar o nevoeiro e começámo-nos a aperceber do real impacto da pandemia.
Os mais recentes números do INE demonstram o grau de gravidade com que o sector do turismo, esse sector fulcral do país e da região do Algarve, desmoronou com o Covid-19. Durante o mês de Abril de 2020, o número de dormidas no país decaiu uns impressionantes 97,1% face aos do período homólogo. As dormidas de não-residentes diminuíram 98,3%, enquanto as dormidas de residentes terão diminuído 92,7%. Trata-se de números que já suspeitávamos, mas obter a confirmação oficial em nada reduz o impacto.
Estes números dizem respeito ao país como um todo, mas o impacto no Algarve deverá seguir a mesma toada, se não mesmo pior. Dada a nossa grosseira dependência do turismo, podemos esperar um verão, se não catastrófico, pelo menos muito abaixo das expectativas.

A pandemia afeta com maior violência as economias com maior pendor de especialização turística. O fecho das fronteiras, das linhas aéreas e a reticência das pessoas em viajarem de férias para os seus destinos habituais coloca em risco toda a economia nacional.

Mais do que tudo, falta confiança na salubridade do turismo; as pessoas pretendem recuperar alguma confiança de que o Covid-19 não os acompanha no trajeto de volta a casa.

Embora tenham existido algumas medidas de afirmação da higienização dos hotéis e alojamento local, a disrupção do tráfego aéreo remete qualquer esperança de trazer turismo para as nossas costas, para o proverbial fundo do saco. Com o turismo e o comércio global em mínimos históricos, compete aos governos fazerem algo de forma a melhorar a situação. Abrir as fronteiras de forma livre é inconcebível; dada a facilidade de transmissão, arriscávamo-nos a criar novos surtos por todo o país.

Uma das medidas em estudo é a criação de “corredores aéreos” com países específicos. A ideia passa por assegurar a mobilidade turística através de acordos bilaterais entre países. Estes acordos permitiriam a chegada de turistas sem a necessidade da quarentena recentemente exigida. Aparentemente, Portugal já iniciou negociações com o Reino Unido e com a Alemanha para criarem estes “corredores”, num esforço de assegurar algum fluxo turístico. A lógica passa pela criação de um esquema que permita a troca de pessoas e bens, de forma relativamente controlada, devolvendo um semblante de normalidade. Tais acordos não serão fáceis de implementar; é necessário que os países intervenientes harmonizem a forma de tratar e lidar com a pandemia. A disponibilidade de cruzamento de informação é fundamental para a manutenção da confiança; deverá haver um entendimento comum entre as metodologias de identificação, tratamento e isolamento dos pacientes infetados. Neste processo, o teste da Covid-19 acaba por ser basilar: o teste à saída do país-origem, consequente comunicação desse teste ao país-destino, um período de quarentena de dois dias e novo teste à volta poderá ser o suficiente para criar alguma confiança no sistema. As viagens curtas devem ser desencorajadas, de forma a permitir períodos de quarentena, bem como evitar “surtos-relâmpago” impossíveis de travar e identificar.

Dito isto, há algo a salientar; tais corredores acarretam riscos consideráveis à população residente. Embora tenhamos sido dos menos afetados pelo Covid-19, nada indica que não poderemos ver um recrudescer da doença na região do Algarve. E dado que o turismo requer, neste momento, doses cavalares de confiança, podemos acabar por ter o pior de dois mundos: sem saúde e sem economia.

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PorAntónio Eugénio
Natural de São Bartolomeu de Messines, nascido em 1983. É licenciado em Economia e Mestre em Marketing pela Faculdade de Economia da Universidade do Algarve, tendo efectuado pós-graduações na área das Finanças Empresariais e da Fiscalidade. É membro efetivo da Ordem dos Economistas e da Ordem dos Contabilistas Certificados. Gestor de profissão, interessa-se especialmente por desenvolvimento regional e territorial e é doutorando em Gestão de Inovação e do Território na Universidade do Algarve.
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