MEMÓRIAS: Messines – Os primeiros cafés

MEMÓRIAS: Na secção Memórias, lembra-se o texto “Messines – Os primeiros cafés”, da autoria de Teodomiro Neto, publicado na edição nº 65, de fevereiro de 2006. 

Até meados do século XX o passatempo dos messinenses consistia, segundo os seus graus sociais, no convívio em tabernas, clube e sociedade recreativa.

O clube consistia numa casta de pequenos comerciantes, agricultores e familiares, em que os políticos do sistema corporativo local enfeitavam os serões restritos a eles mesmos. Havia um piano em que a malta, ludibriando o sr. Jaime sacristão ( o chamado contínuo sempre com o salário em atraso), passava por portas e travessas, desafinando o dito, em concertos que entoavam por todo o soturno e velho imóvel dos viscondes de Messines, desafinando o já crónico desafinado piano. O instrumento pouco usado, pelo motivo de a única pessoa que o utilizava, a menina Lita, ser a mesma que ganhava a vida a ensinar as meninas pouco ricas, solitárias e (muito poucas) que não passavam de ensaiar uma breve salsa mundana, que envergonharia qualquer dos Strauss…

A Sociedade Recreativa era outro mundo! Era a casa de todos os grupos etários da terra. Era uma casa viva que recebia sócios de todos os ramos do trabalho, de operários a empregados de comércio, pequenos artesãos. Era na Sociedade que tudo se passava, se discutia, se vivia: os encontros amorosos dos jovens, pelos bailes; os jogos de azar; as seduções pederastas de caixeiros importados. Tal era a concorrência e a vitalidade da Associação: eram os bailes, era a sala de jogos, era a sala de leitura, eram os bufos à espreita das conversas subversivas. Era a Pide a invadir a biblioteca e a procurar vítimas, era a solidariedade da malta. Era o orgulho da gente do Povo de Messines a juntar-se para honrar o seu Poeta, num busto, numa festa, em poesia, em teatro, em riqueza local.

Depois veio o primeiro café, já com os sócios do Clube à rasca para o sustentarem. O primeiro café de Messines chegou conotado com o partido da União Nacional. Chamou-se de Café União. Notou-se a intenção e o perigo dessa caldeirada de clientela. Os jovens aperceberam-se como os demais, e foram convivendo sem comprometimentos. Poucos anos demorou a exclusividade do “União” que se inaugurara no início de 1950, tendo o Romeu Mansinho a orientá-lo.

Fernando Machado, ainda no início dos anos cinquenta, abre o Café Central, café mais moderno, de cores frescas, mas que não consegue deslocar os clientes, sobretudo no Verão, pelo que a esplanada do “União” cativava.

Pouco depois, o Sidónio Pacheco tem o atrevimento de abrir o Café Popular, num espaço do rés de chão do edifício da Sociedade Recreativa, de que seu pai era proprietário. O “Popular” tornou-se um atractivo de bufos. Pouco tempo demorou aberto. Nem o Sidónio tinha a capacidade de aguentar as agressividades dos salazaristas.

Ainda nos anos cinquenta, Romeu deixa o “União” e abre o seu próprio café, o “Aliança” que ainda se mantém. Romeu foi sempre um gerente sedutor. A clientela correu-lhe de feição.

Recordo os meus tempos de jovem, o prazer de conviver, de despertar e aprender a conhecer o caminho que traçava para as várias etapas do viver.
Aprendi a conviver pelos cafés desde o meu tempo fresco de messinense. Em Faro, sobretudo, o Aliança foi a minha primeira Universidade, quando no início dos anos cinquenta chegue à velha e clássica Ossónoba. Aqui convivi com Homens grandes da cultura e da política. Aprendi a separar o trigo do joio. Conheci o medo e a esperança. Parti e continuei a conviver, mas em liberdade, pelos centros abertos que são os cafés: Paris, Genebra, Tunis, Siracusa, Salzburgo, Saint-Etienne, etc. Já Almeida Garret afirmava que os cafés são o parlamento do povo, e disso tirei as minhas conclusões.
Em 1955 tive a ocasião, a convite duma editora alemã, para escrever uma estória dum grande café europeu. Não hesitei na escolha, o café Aliança de Faro, o terceiro mais antigo do país, foi o meu preferido, com tradução para o inglês e alemão: “Café Aliança – Its History – Seine Geschichte”.

Por isso escolhi hoje vir à memória dos primeiros cafés da minha terra, por onde aprendi essa importância de conviver, desde o café “Tomaselli”, de Salzburgo, fundado em 1703, onde em 1992 “ouvi” dos espíritos musicais de Mozart e de Maria Campina, quando por lá passou, em 1949, no Mosarteum e alcançar a internacionalidade de grande concertista. Ao Aliança de Faro invadido pelas sonaridades poéticas de Cândido Guerreiro, António Aleixo, António Ramos Rosa, entre tantos; pelas entrevistas a Erico Veríssimo (1959), Emiliano da Costa ( 1960), José Afonso, Marguerite Yourcenar no mesmo ano, Amélia Rey Colaço, (1962), etc. Depois de 1974 quantos encontros… e, de entre tantos, o do maestro e compositor Fernando Lopes Graça ( 1991).

Mas foi pela minha terra e seus cafés, que esta “aventura” começou.

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