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Reading: MEMÓRIAS: Rostos notáveis de Messines – Maurício Monteiro
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Terra Ruiva > Memórias > MEMÓRIAS: Rostos notáveis de Messines – Maurício Monteiro
Memórias

MEMÓRIAS: Rostos notáveis de Messines – Maurício Monteiro

Terra Ruiva
Última Atualização: 2020/Abr/Qua
Terra Ruiva
6 anos atrás
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Maurício Monteiro
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MEMÓRIAS:  Na secção memórias publicamos de novo o texto dedicado a Maurício Monteiro, da autoria de Teodomiro Neto e publicado na edição nº 32, de Fevereiro de 2003.

Maurício Serafim Monteiro nasceu em S. Bartolomeu de Messines ( 1889/1986).

Viveu sempre dedicado ao seu Algarve. Depois das primeiras letras segue para Faro, diariamente, pelo comboio, que chegara à terra algarvia, no ano do seu nascimento, para os estudos liceais. A República trouxe-lhe a faculdade de direito, para mais perto, Lisboa, onde se formou.

Descrever o perfil e a personalidade de Maurício Monteiro é deparar, antes de mais, com a sua profunda ligação e apego aos Direitos Humanos, pelos quais se afirmou notável e generoso militante (…)

Maurício Monteiro deu-me sempre o fascínio, desde menino, quando visitava Messines para falar de João de Deus. Íamos à estação esperá-lo, no comboio que vinha de Lisboa ou de Loulé ou de Faro. Os republicanos lançavam foguetes em honra do senhor doutor-advogado, porque Messines era um reduto de velhos e novos democratas.

Maurício Monteiro

(…) Maurício Monteiro, concluindo o seu curso, fez-se notário em Silves. Aí permanece o tempo de constituir família e pôr em prática uma componente de filosofia positivista, ou seja, o altruísmo, a doutrina moral que faz consistir o bem no interesse pelos seus semelhantes, na palavra que Augusto Comte introduziu, no século XIX, no léxico das relações humanas: Uma escola Comercial e Industrial para Silves, eis um ponto de partida que marcará todo o longo trajecto deste messinense, por onde passou, num trabalho silencioso, mas persistente.

Já no início do século XX, em Faro, o estudante Maurício defronta-se nesse princípio de ideias: com o Liceu a fervilhar de mestres para quem o ideário republicano percorria o itinerário da cidade, nos vários espaços que a compunham em escolas, sindicatos, serviços, fábricas e oficinas, teatros e imprensa, sociedade civil, militar e eclesiástica.

Homem dedicado à cultura, procura incentivá-la, recriá-la. Tem por modelo o seu parente João de Deus. Procura nas reformas dos ministérios, saídos dos governos da primeira república, a concepção de novas escolas, incentivos para as diversas culturas e suas áreas. Incitam-no ao engagement político. Maurício rejeita a ideia. Não aceita a República como trampolim de interesses.

Em 1927, o republicano Maurício Monteiro saía do seu imobilismo partidário e apoia, compromte-se, na revolução do Bengo, a sublevação dos marinheiros, a 6 de Fevereiro. É um impulso incontido contra a investida das novas ideias que agitavam a Europa, mais ao centro. E que, em Portugal, se afirmara em Braga. O fascismo modificara o modo de vida num grau até então desconhecido, agitando tanto o clima intelectual, quanto às realidades sociais. De um momento para o outro descobre-se a impotência das leis, da justiça, da economia e da sociedade trazidas à luz dos grandes teóricos. Uma ideologia que viera surpreender o nosso pacífico messinense…

Em Loulé

Já funcionário em Loulé, na Conservatória local. Já esquecida a rebeldia revolucionária frustrada, o messinense ganha a cidadania da vila mais bairrista e industrial do Algarve. O dr. Maurício Monteiro é sondado para um descomprometimento republicano. Os homens da União Nacional querem aquele valor para as suas fileiras.

(…) Maurício Monteiro não aceita conluios… aceita amizades. Nunca traição de ideais. Já entendera que este é o século da violência levada às extremas consequências. Porque este é o século de Auschwitz e de Hiroshima… Será utopia a de uma sociedade que resolva os seus conflitos sem violência? E Maurício praticava-a .

No seio familiar que não entende o sonhador, o advogado que não segue à risca o modelo dos seus parceiros, que pretende conduzir os clientes ao mútuo acordo. Aos outros, rejeita-os, ou é rejeitado… Encontra na escrita alento para a sua causa. Sempre envolvido no trabalho, vigilante pela corrida do tempo, interessa-se pelos acontecimentos do mundo, que analisa.

Lúcido, combativo, generoso e vivendo diariamente como se não fosse nunca morrer, nessa sabedoria, que já conhecera um exílio profissional em Arroios, seguia o seu caminho, sempre indiferente a outras vontades. Com a censura aprendera a ter habilidade na palavra e na escrita, sempre soube lidar com a serpente, evitando-lhe o veneno.

Até que aquele republicano, nunca sendo um infiel político, mas rodeado de homens políticos e dominantes locais, aceita, nos anos cinquenta, a presidência da Câmara de Loulé. Vinha-lhe a posição hierárquica de alto funcionário público, a nível regional. Homem admirado e respeitado não faz oposição declarada ao estado-patrão, nem aplaude o sistema totalitário. Na tomada de posse desarma nacionalistas, faz-se bairrista, num discurso manhoso e aplaudido.

Durante o curto espaço de presidente da “autarquia”, vai a Lisboa pedir escolas, estradas, desenvolvimento. Cria a filarmónica nova, homenageia a cultura, desenvolve a vila em vários programas de progressos. Depois bate com a porta num civismo reconhecido e declara: Aqui está, meus senhores, a casa é vossa!

Em 1951, Maurício Monteiro está à cabeça do II Congresso Regional Algarvio, em Lisboa, na Casa do Algarve. Foi a primeira experiência de força dos algarvios para o desenvolvimento do Algarve, nos anos seguintes…

Não tarda que o messinense chegue à direcção da Casa do Algarve. Em 1961 homenageia o antigo presidente da república, o algarvio Manuel Teixeira Gomes, figura não grata ao regime da ditadura salazarista. Mas o regionalista não esconde a sua admiração pelo valor artístico do escritor e o respeito ao democrata e ex-presidente da República Portuguesa.

Em 1970, Maurício Monteiro dirige a Comissão Pró-Conservatório de Música. Maria Campina recebe o apoio dessa figura tanto estimada dos algarvios. Veiga Simão, então ministro da educação do governo de Marcelo Caetano, recebe a Comissão, escuta as razões dos Algarvios. E despacha o decreto-lei que cria o Conservatório de Música do Algarve.

Em Abril de 1972, Maurício Monteiro apoia o cientista louletano, Laginha Serafim, que em em Faro, no Círculo Cultural do Algarve, lança o Conceito para uma Universidade, no Algarve…

Em 1978, o Messinense vive em Faro a bem com a Revolução de Abril! Acabara o périplo da sua vida. Passeia a cidade no seu andar cauteloso e subtil, na satisfação da liberdade democrática. Sempre impecável: no trato, no vestir, no olhar. É um Senhor, distinto, démodé: as luvas, o chapéu, a bengala, a gabardina vestida ou pousada sobre o ombro não é elemento de adorno, é um tipo de figurino que persistia, naturalmente, por uma idiossincrasia regional- intelectual. Eu revivia naquela personagem, fora do tempo, outras personagens que passaram por Faro, que marcaram um período, nos anos quarenta, desde os locais Assis Esperança, Marques da Silva, Santa Clara, Sidónio, entre outros, a que se juntaram os refugiados estrangeiros, dando um ambiente cosmopolita à cidade da claridade e dos azuis.

Um dia marcámos um encontro no Aliança, uma conversa de messinenses, como o dr. Maurício dizia dos nossos encontros do Velho e do menino. Chegou o Velho Senhor na sua pontualidade de minutos, já à minha espera, no seu porte muito distinto, apesar dos seus 89 anos. Com um gesto de bengala, o empregado trouxe o habitual: galão e torradas. Discutimos o processo para a criação da Universidade do Algarve. O Homem estava pronto para ajudar a corrigir o defeito de Marcelo Caetano, na promessa não cumprida de criar em Faro os Estudos Universitários. Que não foram além da publicação no Diário do Governo.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades… Maurício Monteiro não ficou nas enciclopédias. Mas foi um algarvio que viveu uma eternidade, pensando mais no futuro do que no seu presente.

Quando, aos 97 anos, faleceu em Faro, deixou um pedido: que levassem o seu corpo mortal para Loulé, que a Filarmónica lhe desse música, nos últimos acordes da sonata de Ludwig Beethoven, “Les Adieux”, a acompanhá-lo… Foi o único luxo que exigiu.

 

 

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