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Opinião

Prisão Domiciliária

José Alberto Quaresma
Última Atualização: 2020/Abr/Qua
José Alberto Quaresma
6 anos atrás
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Estou preso. Em casa. Sem culpa formada. Há três semanas que para aqui estou. Feito parvo. Em estado de cagaço. Estado de necessidade.

A minha prisão não foi decretada por nenhum juiz. Nenhum procurador me mandou procurar. Não fui apanhado em qualquer controlo. Muito menos sanitário. Conservo a sanidade. A mental. A outra, ignoro.

Nenhum crime me pesa na consciência. Talvez porque seja leve. A consciência. Um saco de serapilheira pouco diáfana e funda. Onde esburaco pudores, pruridos, preocupações, temores. E o respeitinho pela lei. Convém.

Dizem, os meus fiéis inimigos, que sou um afecto-contagiante. Exageram. Não quero é ser contagiado. Não arrisco. Sou de risco. Tenho medo. Confesso-o. Sem rebuço. E aguardo. Intranquilo. Quem tem pulmão tem medo.

Já me safei de outra. Há muito tempo. Estava a estudar em Lisboa. Não sabia ler. Corria o ano da desgraça de 1857. A capital fora atacada por uma epidemia terrível. Febre amarela. Trazida do Brasil por emigrantes.

Milhares de pessoas perderam a vida. Os habitantes da capital, instilados também por indescritível horror, desnorteavam. Os hospitais enchiam-se de doentes. Os médicos, tão poucos para acudir a tantos desgraçados, desesperavam. As famílias de posses fugiam da cidade a mata-cavalos. Para os arredores ou a província. Só não se lembraram de vir para o Algarve apanhar sol. A ponte Salazar ainda não existia. E o contrato de promessa do Tê zero não estava assinado.

Eu, então, resguardei-me. Na escura cave da ignorância. A mais segura. No caso, a que abriga um ser que ainda não existe. Safei-me.

Só hoje, passados tantos anos, reparei. Naquela crise epidémica, “só ficavam nos seus lares, muitos já regados de copiosas lágrimas e feridas por cruciantes dores, os que as obrigações do trabalho inadiável – porque não pode adiar-se a alimentação dos pobres, nem o modo de ganhar o pão quotidiano em crises tais! – detinham e prendiam em casa ou na oficina.”

Quem viu e me contou isto, por escrito, foi o jornalista Pedro Wenceslau de Brito Aranha. Um colega da Paula Bravo. Um pouco mais velho do que ela. Tinha nascido em 1833. Quando, muito abalado, presenciou a tragédia, trabalhava na Imprensa Nacional.

Para aqui estou. Desmandado. Não me puseram pulseira electrónica. A minha extremosa bem me queria algemar. No tempo em que era novo e são. Agora sou. São?

Não gosto de usar pulseira. Nem smartwatch. Não gosto de me controlar. Não gosto de ser escravo das novas tecnologias. Vai longe o tempo em que me empolgava com uma ou outra nova. E nenhuma era tecnológica.

Nunca tive um amo. Até tenho dificuldade em soletrar a palavra. Amo. Odeio.

Este que quer ser meu amo é um bandido. E, ainda por cima, quer que seja o seu hospedeiro. E que lhe pague o alojamento. E quer prender-me até ao fim da vida. Não pelo coração. Pelo pulmão. E pelo beicinho. Odioso!

Ninguém o viu em lado nenhum. Há quem diga que é mínimo. Eu, lá vem o novo de novo, que media um metro e oitenta e cinco centímetros há tempos. O bandido mede uns escassos milionésimos de milímetro. Ridículo? Não. Perigosíssimo. Não tem cara para um tabefe. Mas tem físico poderoso. E química, então, nem se fala.

Insinua-se bem. Aproveita-se de um abraço, beijo, bafo, espirro, respingo. E penetra. Sem pedir licença. Infame.

Merece muito mais do que um tabefe. Merece ser exterminado. Sem dó, nem piedade. A sangue frio. Com a mesma compaixão que o assassino tem com os indefesos e os debilitados. Os que lhes deram hospedagem. Sem o saber. Generosa, desprevenida e ingenuamente.

Para aqui estou. E continuo. Desmandado. À espera de soltura. Não quero ser hospedeiro. E tudo farei para que ninguém o seja.

Ignoro quando terei uma saída precária oficial. Aguardo, temido, pela Marta. Confio nela.

Afinal, pensando melhor, andamos sempre em precária. Só que, por ora, o horizonte é estreitinho. Do quarto para a sala. Da cozinha para o quintal. Da sala para a casa de banho. E volta.

Tem de ser assim. Para termos precárias maiores e de horizontes vastos, com e sem beicinho. Se Deus quiser e se o chinês não lhe trocar as voltas. A Deus.

 

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PorJosé Alberto Quaresma
José Alberto (de Oliveira) Quaresma nasceu em Portimão. Licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Prosseguiu estudos em História Moderna e Contemporânea, na Universidade de Paris- Sorbonne (Paris IV), com Pierre Chaunu e André Corvisier e em História das Mentalidades Religiosas, no Collège de France, com Jean Delumeau. Foi docente do ensino secundário e formador de professores. Publicou artigos em revistas científicas e apresentou em vários fóruns comunicações sobre História, História das Mentalidades, Sociedade e Sistema Educativo. Tem, como colunista, colaboração dispersa por vários periódicos, nomeadamente, O Independente, Público, Expresso, Correio da Manhã, Domingo Magazine. Obteve o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1989), pelo livro A Pose Extática, (Afrontamento). Publicou Ecolalia, poesia (Vega) e, na mesma editora, Direito ao Erro – A Batalha da Educação em Portugal. Foi autor de «Falta de Castigo – O Blogue da Educação e da Falta Dela», no semanário Expresso, entre 2008 e 2014. Coordenou as Comemorações do 122º Aniversário do Nascimento de Manuel Teixeira Gomes (1982-1983). Foi comissário para as Comemorações Nacionais dos 150 Anos de Manuel Teixeira Gomes (2010). É autor de Manuel Teixeira Gomes – Biografia (Imprensa Nacional – Casa da Moeda / Museu da Presidência da República
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