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Laçarotes

Finda a época festiva, mas ainda a tempo de vos desejar um excelente ano de dois mil e vinte, interrogo-me sobre o valor da riqueza, particularmente sobre o índice do produto interno bruto, aquele valor que indica o quanto rico é um país. Claro que estou a reduzir um país à sua dimensão económica, o que é uma forma simplificadora de entender uma nação e um povo. A cultura, a natureza, a vida, a política, a felicidade, são outros fatores do entendimento do que é um país. Um país é uma complexidade de tudo, incluindo a economia, o social, o cultural, o político, a vida.

Esta reflexão sobre a riqueza surgiu a partir de dois laçarotes de caixas de chocolates, desta quadra natalícia, particularmente, de setenta e cinco centímetros de uma fita branca, de tonalidade rosa, com uma largura de centímetro e meio, de uma caixa pequena (oferecida por uns amigos), com umas letras em francês que anunciam que Bruyerre é la passion du chocolat, e um metro de uma outra fita dourada, de um dourado cintilante, com quatro centímetros de largura, sem dizeres, de uma caixa maior (comprada por mim numa superfície comercial), em formato de cinta, unida por um elástico salpicado de dourados, cosido, provavelmente por uma operária numa máquina de costura, em dois grupos de pespontes, sustentando um laço, do mesmo tecido dourado, atado com um pequeno cordel dourado, pelas mãos da mesma operária ou de outra em igual condição.

O pormenor do elástico e do atilho, transportou-me para o trabalho operário, de baixa remuneração, encoberto nos produtos que consumimos diariamente, sem nos indagarmos, como na música de Sérgio Godinho: vi-te a trabalhar o dia inteiro/muita força para pouco dinheiro.

A caixa menor tinha um sortido de oito bombons distintos, sabor e formato, entre si. A caixa maior tinha dezasseis bombons sensivelmente iguais, no que respeita ao formato e ao sabor. A qualidade do chocolate era distinta. Ao meu gosto, os oitos bombons belgas foram tragados num curto espaço de tempo. A quantidade de chocolate, de cartão e de tecido era significativamente maior na caixa do laçarote dourado, a que, por sinal, foi mais económica. Os chocolates belgas, em menor quantidade, foram comercializados por um valor superior aos outros chocolates, acredito que de produção nacional, porque a raridade do produto e a sua qualidade geram uma maior mais-valia nas transações comerciais.

O produto interno bruto da Bélgica é uma vez e meia superior ao de Portugal, vendem menos produto, de grande qualidade, por maior valor, gerando o suficiente para pagar melhor a matéria prima, o controlo de qualidade do chocolate, o engenho da construção da caixa, maximizando a resistência da embalagem e minimizando o consumo de cartão, o design da fita branco rosa, a distribuição e a comercialização do produto. A qualidade das matérias primas, dos produtos e dos desempenhos, garante um melhor retorno económico; um maior poder de compra exige uma melhor qualidade dos produtos.

Como nos laçarotes, crescemos em círculos, apostemos em melhor desempenho, em melhores serviços e em melhores salários.

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