Ano precário

Um dos valores mais caros aos seres humanos é o da segurança. A grande maioria das pessoas anseia por uma vida profissional e familiar estável, com novidades mas sem sobressaltos, com condições para fazer planos a médio e longo prazo e estabelecer metas para os seus percursos pessoais.
No entanto, estes desejos não passam de uma miragem para um número crescente de trabalhadores, sendo o Algarve a região mais atingida por um autêntico flagelo: a precariedade no trabalho.
No passado mês de dezembro, a CGTP- IN organizou uma Semana Contra a Precariedade e o Sindicato da Hotelaria do Algarve divulgou umas estatísticas aterradoras. No Algarve – “região campeã nacional do trabalho com vínculos precários” metade dos trabalhadores são precários e no sector de hotelaria, restauração e similares a situação é ainda mais grave, sendo cerca de 60% os trabalhadores nessas condições.
O que significa que na mesma altura em que somos presenteados com os números felizes dos lucros alcançados no sector turístico, somos também confrontados com a realidade de milhares de trabalhadores precários, muitos deles jovens, com o futuro suspenso da conhecida questão: será que voltam a chamar-me? E quando?

Com os vínculos precários surgem por arrasto outras realidades também nada bonitas: a sujeição às más condições de trabalho e de segurança; a aceitação de horários brutais; o não pagamento de subsídios e horas extraordinárias, a ameaça de despedimento e não renovação de contratos aos mais exigentes e “refilões”.

Este é um mundo laboral que todos conhecemos, por experiência própria, ou de familiares e amigos, e uma situação que se agrava, quase sem darmos por isso. Abrimos hoje as revistas, blogues e publicações da moda e encontramos dezenas de artigos que vendem a ideia dos “novos empregos” e do mundo cor de rosa em que os jovens chamados “millennials” trabalham. Ao que parece, é tudo muito bom. As pessoas têm liberdade de horários, podem até trabalhar de pijama, a partir de casa, ou na esplanada do café, a apanhar um solito. Ah, sim, e essa coisa da precaridade do emprego, ao que parece, não afeta esta nova geração. Querer segurança no trabalho é coisa do antigamente, antes do digital e da modernidade. Até porque estes jovens querem é aventura, querem é ter “experiências” e nem se imaginam muito tempo no mesmo emprego!… Esta geração, que em 2025 representará 75% da força de trabalho mundial, confia no seu sucesso profissional, espera aumentar significativamente o seu salário nos próximos cinco anos e acredita num país com menos desigualdade – é o que dizem os estudos divulgados.

Mas no país da maioria das pessoas, as perceções são outras. As recentes alterações à legislação laboral alargaram os contratos de curta duração de 15 para 35 dias e o período experimental que era de 90 dias passou para o dobro: 180 dias. Segundo denuncia o Sindicato da Hotelaria, este alargamento do período de experimental poderá ter consequências brutais, no sector sazonal das atividades turística, pois nada impede que um empresário contrate um trabalhador em qualquer altura do ano e o despeça passados 179 dias, “sem qualquer justificação ou indemnização e em alguns casos nem direito a apoios sociais por não terem cumprido os tempos de trabalho necessários para terem direito a esses apoios”!

Neste mundo do trabalho em que a única garantia é que não há garantias, a estabilidade profissional, social, familiar e emocional encontra-se cada vez mais ameaçada, numa realidade muito abafada que não é suscetível de se promover com o glamour da “liberdade de escolha”, “enriquecimento pessoal”, “vivenciar de experiências”, nesse mundo laboral onde os trabalhadores passaram a colaboradores e a instabilidade é antónimo de rebelião e luta por direitos.

Veja Também

20 anos, com a razão e o coração

No passado mês de abril – no dia 25 – o Terra Ruiva comemorou o …

Um Comentário

  1. Li o editorial da edição de Janeiro do TR, que aborda um tema bem momentoso e transversal aos tempos que vivemos: o da precariedade e insegurança no emprego, problema ligado, maioritariamente, a zonas, onde o trabalho é sazonal e, em especial, ao sector do turismo, como é o caso do Algarve.
    Esta análise merece alguma reflexão, seja em relação ao passado, seja projectada no futuro.

    Recuando um pouco no tempo, até ao advento da computorização das empresas e banca – onde desenvolvi a minha actividade profissional – recordo as maravilhas que a informática veio propor, sob vários aspectos, como seja o da rapidez de processos, ausência de erros e de consaço, mais ordenação e método, poupança de papel, como suporte dos vários assuntos e, acima de tudo, o que era apresentado como uma das mais-valias dos computadores, em termos de tempo ganho, a fim de que as pessoas ficassem – dizia-se – mais libertas para ocupações lúdicas, as mais diversas, tendo apenas como limite a sua imaginação.

    Só que não seria bem assim.
    Apenas se olhava para um dos lados da equação e, como em tudo, além do verso, havia também o reverso.
    Dito de outro modo, não se contava com o desemprego que a informatização trazia no ventre.

    Poderemos argumentar que situações semelhantes já existiram no passado, mencionando as cenas tristes – nalgumas vezes, até, dramáticas, devido à fome que grassava -, que tiveram lugar, por esse Alentejo fora, nos largos principais das várias terras, onde os trabalhadores rurais se juntavam e os lavradores os escolhiam, a dedo, para as tarefas nas suas herdades e lhes ofereciam jornas ofensivas, enquanto muitos outros – os preteridos – regressavam a suas casas, cabisbaixos, sem nada para oferecer a suas famílias.

    Podemos, até, ir ainda mais longe, no tempo, até à conhecida ‘Place de Grève’, situada na ‘ Île de la Cité’, em Paris, onde homens desempregados se concentravam, a fim de conseguirem trabalho para a descarga dos barcos, sendo que a conhecida expressão ‘estar em greve’, nada mais significava, no início, do que a sua permanência nessa praça, enquanto aguardavam ser contratados.
    A mesma praça foi, posteriormente, também utilizada, como local de concentração, nas lutas por melhores condições laborais.
    Refira-se que o termo ‘grève’, que integra o nome da antiga praça, designava a areia grossa da praia que rodeava a ilha.
    Mais tarde, o vocábulo ‘grève’ seria aproveitado, semanticamente, para o seu sentido actual.

    Poderemos, pois, argumentar que tudo isso (entenda-se, a precariedade e o desemprego) já ocorreu no passado.
    Só que a exigência de qualidade de vida actual, por parte das pessoas, não se compadece com padrões quase esclavagistas, que vigoravam, em tempos recuados.

    À situação de precariedade crónica, não apenas sazonal, que a actual juventude enfrenta, junta-se o grave problema da impossibilidade de poder definir e programar, de um modo seguro e sustentado, a sua vida futura, designadamente, em termos dos filhos que gostariam de ter e não podem, facto que colide, frontalmente, com a grave crise de natalidade, que a sociedade ocidental enfrenta, com todas as consequências na precária sustentabilidade dos sistemas de Segurança Social, que garantem as merecidas pensões de reforma, após uma vida de vários decénios de intenso labor e descontos capitalizados para o efeito.

    Mas não é tudo, visto que novas e mais graves ameaças se vislumbram, negras, no horizonte.
    A sociedade dos homens, na sua cavalgada cega e imparável, no desenvolvimento viciado e infinito da técnica, que, há muito, ultrapassou o seu ponto ideal e útil de evolução – cegueira, cujo ‘melhor’ cartão de visita é a degradação constante do ambiente – traz-nos, agora, como a ‘maravilha das maravilhas’, a robótica, a qual, num futuro bem próximo, substituirá o lugar de muitos milhões de trabalhadores, que serão lançados, crua e friamente, no desemprego, na fome e, de seguida, eventualmente, na violência e no crime forçado, pela conquista de um pouco de pão para os seus.

    Tudo isto aponta, para que o que se avizinha seja de verdadeira barbárie e de retorno a tempos antigos, com legiões de desempregados, sedentos por uma migalha de oportunidade, tempos que supúnhamos enterrados e fossilizados, em que a escravatura do ser humano, regressará, de novo, embora envolta em roupagens novas, mas não menos dramáticas.

    O quadro que apresento não pretende ser uma visão apocalíptica, mas será, certamente, um futuro bem espinhoso, que as gerações vindouras dos nossos descendentes terão de arrostar, numa concorrência impiedosa e quase desumana.
    Garantidamente !

    Solução ?
    Existe.
    É tudo fazermos para que, com o esforço de cada um, sejamos cada vez mais instruídos, informados e dominemos o conhecimento, a fim de estarmos à altura de afrontar alguns opressores patronais, que os haverá e com um refinamento bem mais sofisticado do que o actual, que serão os verdadeiros beneficiários e fautores desses tempos difíceis, que nos visitarão, inevitavelmente, e vitimarão os mais frágeis.
    Quem não se preparar, poderá sucumbir.

    O devir da sociedade humana – embora os que, eventualmente, leiam estas linhas já cá não irão estar presentes – deve deixar-nos apreensivos, visto que ‘o homem é (mesmo) o lobo do homem’, como discorreu o filósofo inglês Thomas Hobbes (século XVII), na sua obra ‘Leviatã’, termo de origem judaica, que designa um monstro alegórico que integra o imaginário da mitologia hebraica do Antigo Testamento.
    Thomas Hobbes propõe, no seu livro, que o homem necessita de viver, numa sociedade regulada por normas, como condição fundamental para a sobrevivência humana, com face humana, a fim de evitar que caia na barbárie do mais forte, conjunto de regras que apelidou de ‘Contrato Social’.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *