Home / Opinião / De costas para ti

De costas para ti

Amo-te. Deixa-me estar frente a ti. A repousar meus olhos. Tua boniteza atrai-me. Desde sempre. Intimidas-me. És grande. E frio. Raro me dás um afago morno.

Por estes dias, não me atrevo a descer até ti. Tens bramidos que parecem vir do fundo da alma de homens malvados. Sacolejas-te muito. Enfureces-te, não raro. Teus perdigotos salpicam-me o rosto. Perturbas-me.

Quando te olho, enterneço-me. Nada vejo para além de ti. A não ser a ténue linha ao fundo. A do teu silêncio. Onde te dobras. Finges desaparecer. E continuas mais além. Onde imagino que te não deixas prender.

Fazes parte de mim. Desde que me sei. Cedo me embalaste os dias. Tão cedo que ignoro quando foi. Talvez eu ainda não fosse. Ou sim. Olhar turvo. A tentar unir os dedos das duas mãos. A descobrir que eram as minhas. Para te afagar.

Eu desejava-te. Murmuravas-me segredos, noite escura. Meu leito era tua solidão aconchegada. Adormecia ao teu balanço. Esquecia-me que estavas a dois passos. Os passos que ainda não dava. Para tocar-te. À beira do precipício.

Aproximei-me. Entrei em ti. Com medo. Ou respeitinho. O pai dizia que o respeitinho era muito bonito. E, bonito, apenas tu. Estavas sempre a mudar. E eras o mesmo. Remexias-te a todo o instante. Alteravas-te. Praguejavas de voz rouca. Cambiavas-te de tintas translúcidas. E de humores. Quase te não deixavas ouvir, também. Serenavas à luz coada das almadravas.

Quando já éramos íntimos, fazias de mim um penacho à deriva. Enrolavas-me. Trocavas-me as voltas. Revolvias-me em areia e saibro. Beijavas-me sem pudor. E eu regurgitava um pouco de ti. Espumavas-te contra mim. Não sei se para me repelir. Se para me veres morrer em teus braços líquidos.

Confesso. Cada vez gosto menos de estar de costas para ti. Não é só boa educação. É bem-querer. Não gosto que te insultem. E te conspurquem. Mereces o asseio do mundo.

Continuo a detestar que te entaipem as margens. Viro-me de costas para ti. E o que vejo à minha frente? Ou o que vês, se visses?

O que fizeram à paisagem que te ornava? A que nos foi comum? E que há décadas nos destroem. E a que substituem por outra, igual em toda a parte. E que nos avilta. E a que me resigno.

Onde estão as figueiras, as amendoeiras, as romanzeiras, as oliveiras?

Libertaram máquinas para rasgar a terra fofa. E outras para reduzir a cacos as pequenas casas de alvenaria, as eiras, as cisternas.

Plantaram constelações de estacas de ferro. Envolveram-nas de caixotes de madeira tosca direitos ao céu. Encheram-nas de concreto. Ergueram frente a ti muros altivos. E gaiolas de alumínio envidraçadas.

A voragem continua. A cupidez não tem fim.

Sei que um dia te vais vingar. Estás a crescer muito. E não vais parar de engrossar, subindo margens, cais, taludes. Os homens não te respeitam. E tu, meu sacana, não costumas ter pena deles.

Quando ousam afrontar-te, sacodes as tuas imensas línguas de sal e espuma. Afundas quem se te atravessa na tua deriva. Invades estradas. Alagas praças. Encharcas ruas. Afogas prédios e palácios.

Um dia, levarás tudo à frente. E deixarás rastros infindos de lama e detritos. Devolverás à terra, e à gente que cá esteve, seus dejectos sedentos. Para memória futura. Se a houver.

Não estarei para o lamentar. Andarei alhures. A sonhar-te. Como no tempo em que a terra era menos suja. E a gente te temia. E te queria.

Talvez esteja a chegar outra gente, muito nova. E te veja de olhar limpo. Não como um vazadouro. Mas um berço infinito. Embalado ao luar da esperança. Talvez.

Partilhe nas redes socias:
Share on Facebook
Facebook
0Pin on Pinterest
Pinterest
0Tweet about this on Twitter
Twitter
Share on LinkedIn
Linkedin

Veja Também

Marés e orçamentos

Se há período com animação no Parlamento, é aquando da negociação do Orçamento do Estado, …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *