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Golfe de Silves – Prós e contras

Foi dada luz verde para a construção de um campo de 18 buracos, junto a Silves. Normalmente o golfe está associado a empreendimentos imobiliários com muitas moradias, mas, neste caso, o que nos é apresentado é um hotel com 700 camas.

Estamos tão habituados ao outro cenário, que este nos parece algo estranho. Não se tem ouvido muito ruído sobre o tema, mas admite-se que o campo de golfe será melhor visto pelo povo trabalhador do que pelas intelectualidades. Quem já tem bom emprego, certo e eterno, estará mais confortável para dizer que “basta de campos de golfe” ou “chega de construção“. Quem tem mais incerteza quanto ao futuro, olha com outros olhos para esta nova oportunidade.

Será o primeiro campo de golfe na bacia hidrográfica da ribeira de Arade, que irá ser regado com a água da barragem mais próxima, uma vez que os terrenos estão inseridos nesse perímetro de rega. Alguém há-de vir dizer que a água não deve servir para esse fim, mas é bom que repare quantos campos de golfe, situados noutras bacias hidrográficas, estão gastando água da barragem do Arade. No entanto, convém relembrar que, perto desse local, existe uma ETAR que joga fora água que, segundo os entendidos, daria para regar um campo de golfe. Em teoria, essa água tratada serve para encher lagos e regar árvores, sebes e até alguns relvados.

Dizem que o golfe gasta muita água, mas quando nos falam em metros cúbicos consumidos, reparamos que está ao nível dos pomares de citrinos e abaixo do arroz e dos olivais intensivos. No que toca a uso de fertilizantes e de fitofármacos também não suplantará as culturas citadas. Só quem não conhece o mundo das culturas agrícolas, é que pode defender que o golfe é o mau da fita.

Este golfe será implantado em leito de cheia, onde a última cheia significativa terá sido em 1996. Um dia, mais tarde ou mais cedo, há-de vir outra cheia ou a “cheia do século” o que poderá não ser muito perigoso para um campo de golfe, feito com os devidos cuidados. Com uma cheia das do antigamente, quem mais sofrerá serão as piscinas, o parque das caravanas e os estabelecimentos de restauração ribeirinhos.

A zona ribeirinha, onde vai ser implementado o golfe com o hotel das 700 camas, presumo que é reserva agrícola, reserva ecológica e rede natura 2000. Qualquer um de nós, que tenha um terreno com essas características, não consegue lá construir uma cama por hectare, quanto mais meia dúzia ou uma dúzia. Direi que há filhos e enteados…

O terreno da zona não terá grande potencial agrícola, devido à salinidade do solo. Sabe-se que o arroz é das poucas culturas que toleram este tipo de solos. No final dos anos 50 o arroz foi cultivado no local, mas a produção de mosquitos gerou mal-estar na cidade de Silves. Há algumas décadas, uma vinha marcou presença no local, mas não foi plantada no solo, mas em “alguidares”, num sistema muito parecido com a hidroponia, agora muito praticada em cultivos em estufa. O mínimo que “podemos exigir” é que não prejudiquem a “reserva agrícola“ e o aproveitamento futuro do terreno para fins agrícolas. O terreno é emprestado ao golfe, mas se colocarem nele imensas telas e pedras e mais pedras, uma recuperação futura torna-se muito onerosa. Lembro uma terra de pão, não muito longe de Silves, que foi tão alterada com um campo de golfe…

Este troço da zona ribeirinha de Silves é quase um deserto ambiental, por onde esvoaçam algumas cegonhas e mais umas quantas aves. Um campo de golfe com lagos cheios de vegetação lacustre, com muita relva, algumas árvores e muitas sebes, poderá ser uma grande melhoria ambiental. Os animais predadores, abrigados na serra, serão tentados a considerar a zona como uma boa despensa.

Se não houver travessias para a fauna, muitos deles serão cilindrados na 124.

Por todo o mundo há campos de golfe muito bonitos e com boa gestão ambiental, onde os fitofármacos e os fertilizantes são usados o menos possível. Se isso acontecer em Silves, nada impedirá que as aves, que se alimentam na porcaria no estuário do rio Arade ou no aterro sanitário, venham morrer nos relvados. Sendo os campos de golfe locais de pernoita, algumas aves dessas morrem lá vítimas de botulismo. Os “entendidos” decidem, à vista desarmada, que foi por causa dos venenos que aplicaram na relva para matar as lagartas.

Texto de: António Duarte

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