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Bom proveito

Gosto de ir jantar fora. No quintal. Dois passinhos. Sento-me à mesa. Aprecio a paisagem ofuscante. Quatro paredes caiadas. Um cheirinho a alecrim. Há quem chame jardim a um quintal. É mais fino.
Sirvo-me. Não me excedo com os sólidos. Nem com os líquidos. Não fico gasoso. Sou um doce. Nunca abuso deles. Nem eles de mim. Amargo, portanto. Por pouco.
Jantar fora das quatro paredes caiadas é muito mais excitante. Tem de haver intermináveis negociações, ao telefone, com os amigos do costume para decidir o restaurante. Tento fugir do modelo 24 Kitchen. Duas poitas (termo náutico) no deserto do prato e um hieróglifo espichado a vinagre balsâmico não me aguçam o apetite.
A qualidade que requeiro não deve extravasar o meu orçamento geral do estado. Do estado das finanças privadas. Do estado de espírito. Por mim falo. Contra mim falo. Presumo que isto deva ser confundido com sagorrice.
Sou acanhado para experiências novas. Ir sentar-me num restaurante da moda, só porque é suposto elevar-se acima do courato crocante, não me apetece. Temo ser untado com excessos de generosidade de donos de casas de pasto pretensiosas.
Hoje falarei apenas dos restauradores sérios demais. Dos sérios apenas, nada direi. Estes são muitos e merecem respeitinho.

Exijo uma boa relação qualidade – preço. Quem não aprecia uma boa relação? A minha relação, a outra, não é muito católica. Ainda não subimos ao altar, mas funciona bem. Tem muita conta, peso e medida. Conta cêntimos. Pesa cem quilos. Mede largo.
Falo desta metade da relação. A outra metade é muito mais elegante. Passa fome.
Não faço descriminações na restauração de Portugal. Nem na dos Algarves dáquem e dálem-mar em terra. Sento-me com o mesmo à-vontade numa tasca como numa tasca. É parecido mas não é igual. Há tascas que parecem restaurantes. E restaurantes que nunca deixarão de ser tascas. Sem menosprezo pelas genuínas.

No outro dia, instalei-me num que só eu conheço, com a minha outra metade da relação, para comer um peixinho assado. Entrámos. Olhei para a montra. Uns carapaus gordinhos acenaram-me. Apesar de deitados, não tinham olheiras. Passaram bem a noite, graças a Deus, pensei. O restaurador que trata o peixe por tu, como me trata a mim e não desgosto, confirmou-me.
Quando os bem encarados chegaram ao prato, verifiquei que tinham andado na boa-vai-ela. Ou eram moços fora de água há muito tempo. Ou andaram remexidos nas arcas congeladoras com medo da eternidade do gelo. E assentaram arraiais na cozinha antes da grelha. E substituíram os da montra, acabados de chegar da faina. Bem feito. Devolvi-os à procedência.
Lulas frescas, em substituição, sugeriu-me o restaurador. Venham. Fui mastigando a certeza de que eram moças da idade dos carapaus. Engoli-as com o acompanhamento da certeza. Mas não posso mandar tudo à procedência. É mau procedimento. O restaurador tem sempre razão. A verdade dele não é a do peixe. Acredito mais no peixe.
Vou deixá-lo no defeso. O peixe? Não o restaurador. Para o ano, decido se voltarei a deixar-me capturar por ele. Estou certo de que não cessará de lançar-me o anzol. Só que não gosto de ficar preso pelo beicinho.

A minha mãe Laura despejou-me quase à babuja. O avô José Marques instilou-me o vício do peixe fresco bem assado. Mais tarde, aprendi a deixar-me seduzir mais pelo olho do peixe do que pela guelra do restaurador. O peixe nota-se pelo sangue vivo. O restaurador muito sério pelo sangue frio.

Os restauradores têm andado eufóricos. E sobranceiros. Nestes dois últimos anos turísticos, com bichas à porta, fazem o favor de dar de comer à populaça. Fartam-se de perder dinheiro. Gostam de lamuriar-se. Pois, na vê, o pessoal na tem cheta, muita parra e pouca uva, na tocam no couvert, só meia dose para dois, na bebem vinho, sobremesas nem pensar, um cafezinho, curto, médio, cheio, chávena fria, aquecida, para dois, enfim o costume.
E no entretanto, há sempre alguém que resiste. Há patrão que gosta de ir à praça de Lamborghini. Um pargo grande a saltitar na bagageira mostra qualidade de vida. E o empresário não se apercebe que faz figura de pargo. O oiro dos cachuchos nos dedos da mãos realça apenas a riqueza de fora. E a pobreza de dentro. Esperemos que a de fora o deixe livrar-se das livranças ao banco.

O reino de Portugal e dos Algarves está na moda. Porque os estrangeiros regressaram à saga dos descobrimentos estivais baratos, enquanto o Magreb esteve a ferro e fogo. Porque os portugueses tiveram um pequeno alívio nos cortes salariais e desataram a consumir. Porque há muito mais gente a sair de casa sem o complexo ansioso de viver acima das possibilidades. Porque a sazonalidade diminuiu significativamente, fazendo acrescentar Verão ao Outono e, sabe-se lá, ao Inverno. Porque a taxa de IVA na restauração baixou de 23% para 13%.
E o que acontece? Depois de tantos anos de aflições, não alimentam a cria que lhes dá agora cachuchos, sem escamas. Preferem engordar-se à pressa. Tratam menos bem os clientes, diminuem as doses, aumentam os preços, fazem por extorquir couro e cabelo a turistas e indígenas. Até que se lhes descubra a careca.

Já se esqueceram do que penaram. Por este andar, quando chegar o tempo das vacas magras, perdão, dos muges e das bogas gordas, que será suposto chegar como ciclicamente acontece, irão lamuriar-se, ser mais atenciosos, queixar-se dos desgovernos, do cliente que não tem cheta, dos impostos, da prostituta da vida que lhes é madrasta. Nunca se queixarão de si próprios.

Aí acorrerei a consolá-los. Não proferirei o cínico cumprimento: “Que lhes faça bom proveito!” Sim, claro, devo ser compreensivo. Os proveitos são deles. As perdas são minhas. Pequenas perdas, é certo.

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