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Nem Vivalma

Céu limpo por dentro. Maré cheia. Água azul. Ar manso. Temperatura tropical. O Verão já corre. Nem vivalma na piscina. O vestiário está órfão de roupas de homem. O atleta, que lá vai três dias por semana, só vê o seu par de calças suspenso do cabide.
O atleta é um colunável. Operado à coluna, precisa de enrijecer a musculatura da lombada. Tem de pôr cem quilos de carne e osso a bracejar à chapada na água. 25 metros para lá, 25 metros para cá e torna-viagem. O volume de água deslocado impressiona. Um verdadeiro maremoto. Os vagalhões de sueste desprendidos quase arrancam os degraus metálicos das escadas da piscina. Exagero.

Não se vê um nadador-salvador. Nem à vista desarmada, nem através dos vidros embaciados dos óculos. O atleta solitário anda de touca. Não podia ser doutro modo. Não há companhia para partilhar, dentro da água, algum cabelo relapso. O elástico dos óculos aperta-lhe a cabeçorra com dureza. Parece querer dispará-la, em terrível impulsão de fisga, e assestá-la no céu da piscina. Que horror.
O atleta arfa. Arfa muito, entre tabefes de bruços, crowl e costas. O médico proibiu-lhe de fazer trejeitos de mariposa. Paciência. Mas sente-se bem. Expira golfadas de ar dentro da água. Inspira botijas de ar por fora. Grande inspiração. Fuuuu… E se sentir em dificuldades? Não quer dar ali o último suspiro. Cruzes canhoto. Não há madeira para bater os ossos das falanginhas. O Diabo seja cego, surdo e mudo.
O atleta sabe que não é anfíbio. Nem bóia insuflável, em forma de hipopótamo. Tem apenas o nariz volumoso. Como um seu pobre parente, do reino animal, a chapinhar nos charcos da Namíbia. E os nadadores-salvadores, imagina ele, devem estar lá dentro no gabinete, entretidos a jogar à sueca. Em terra firme e em segurança. O paquiderme sente-se inseguro naquele charco rectangular a feder a cloro. O atleta acha que há ali imprudência da divisão de desporto municipal. Não se deve deixar sozinho um veterano da Primeira Guerra Mundial a esbracejar.
O atleta esforça-se. Compete apenas contra si. É sabido que, entre si e o próprio, se travam os mais renhidos combates duma vida. Os dois são, um para o outro, os piores de todos os adversários. Dois em um. Um contra um.
Passam pela cabeça do atleta todas as tentações de Santo Antão para desistir. Aguenta-se. Não vai atirar a touca ao chão. Desengane-se o próprio.

O atleta, esfalfado, regressa agora ao vestiário. Apresenta-se, como um falso Adão no Jardim das Delícias do Hieronymus Bosch. Do chuveiro, desprende-se uma morrinha sovina. Perdigotos de molha-tolos. Poupança de água municipal, pensa o atleta. Ensaboa-se com ganas higiénicas de gel e shampô all-in-one. Está ali apenas com as suas cãs e pensamentos avulsos por baixo delas. Esfrega-se muito. Como se a sua pálida pele fosse a tábua de lavar mais encardida da freguesia. Percebe-se que ainda não foi à babuja da água salgada. Pois. As nortadas sempre lhe causaram arrepios. A água do mar ainda não está tão choca como a da piscina. Faltam os suestes. Está-se melhor aqui. A chapinhar a solo.

É assim o Algarve do Barrocal. Tem quase tudo para fazer felizes os seus habitantes. Escolas, piscinas semi-olímpicas, campos de futebol relvados, ginásios equipados. As juntas de freguesia e as câmaras, apesar de uma ou outra imprudência, desatenção ou só apenas forretice, têm feito um investimento enorme para garantir qualidade de vida aos fregueses do interior. Ao longo dos quarenta e quatro anos de democracia, têm conseguido melhorá-lo, e muito. Só não conseguem trazer gente para nele habitar. Os jovens nem pela arreata do Wi-Fi por aqui se demoram.

A atracção pelo litoral é irresistível. No interior, ficam os velhos. E, no interior dos seus interiores caseiros, cismam de saudade. Não conseguem espernear de jeito, como outrora nos colchões de fatana. As ondulações suaves já não se espraiam na piscina de molas do leito conjugal.

O atleta eremita alisa o cabelo húmido. Compõe-se. Regressa à cidade.
Não foge do mar. Sabe, desde a infância, que ele nunca fugirá de dentro de si. Não se queixa por ter estado uma hora a sós num oceano finito, tresandando a cloro. Até agradece. Às vezes, mais vale só do que bem acompanhado.

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