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Mathilde

A minha avó materna foi exposta, aquando do seu nascimento. Assim reza a história de que fora abandonada pelos pais após o nascimento ou com pouca idade. Os chamados enjeitados, numa palavra mais popular e menos erudita, pouco própria para as escrituras das paróquias das cidades e das vilas do nosso país. Sempre assumi, com alguma certeza, três ou quatro factos a propósito desta minha avó que já era sexagenária quando nasci. Que tinha sido enjeitada, no ano da graça de mil oitocentos e noventa e oito (estava errado), que fazia anos em março, que foi deixada à porta da igreja de São Bartolomeu de Messines (estava errado) e que tinha sido entregue a uma família para a devida criação.
Ultimamente surgiram, em conversas familiares, algumas versões alternativas como a igreja do Algoz em lugar da de São Bartolomeu de Messines, a presença do prior de Alcantarilha como padrinho e o apelido da Conceição em homenagem à Nossa Senhora da Conceição, por sinal padroeira das paróquias de Alcantarilha e de Silves. Um aspeto importante da narrativa oral que eu conhecia é que teria sido deixada com um enxoval em que trazia bordado o nome para o batismo, o nome que lhe queriam dar. Este enredo conjeturava que, pelo menos a sua mãe teria bens e, em consequência, a minha avó era fruto de uma relação imoral para a época, mas que, de alguma forma, a progenitora tentara manter um laço com a sua filha recém-nascida, através do nome.

Decidi fazer uma pequena investigação no espólio existente, no Arquivo Distrital de Faro (online), dos registos dos batismos das diversas paróquias do Algarve (existentes até ao ano de mil novecentos e cinco). As pistas eram poucas, mas curiosamente nos anos de mil oitocentos e noventa e oito e de mil oitocentos e noventa e nove, nos batismos da paróquia de São Bartolomeu de Messines, existe um único batismo com o nome de Mathilde. Pelos dados percebi de imediato que aquele registo correspondia à minha avó materna e que, no essencial, despojados de idealismos, os acontecimentos registados não divergiam em muito das minhas ideias iniciais.
A escritura da Igreja Paroquial de São Bartolomeu de Messines reza que, aos quinze dias do mês de março do ano de mil oitocentos e noventa e nove, a minha avó materna foi solenemente batizada com o nome de Mathilde. Acrescenta que a criança, exposta, foi apresentada por Joaquina da Conceição, casada, doméstica, moradora no sítio do Vale Longo (meio caminho entre Messines e São Marcos), por ter sido encontrada à porta de sua moradia pelas oito horas da noite do dia catorze do referido mês e ano (um ano mais nova), não trazendo sinal algum. Relata ainda que foram padrinhos José Pedro da Silva Martins, sacristão, casado, e a referida Joaquina da Conceição. Este mesmo registo (na margem esquerda da folha) tem as datas de casamento com o meu avô, José Diogo, 26 de fevereiro de 1927, e do seu falecimento, em onze de março de mil novecentos e setenta e seis (quem sabe se não teria completado os setenta e sete anos).

Em breviário, uma mulher encontra uma criança do sexo feminino à noitinha à porta de sua moradia e, na manhã seguinte, dirige-se à igreja para batizá-la. O prior recorre-se do sacristão para padrinho e da própria mulher, para madrinha, e batizaram a criança dando-lhe o nome de Matilde da Conceição, apelido da mulher que foi mãe e madrinha.

Esta exposição revela a importância dos registos escritos, neste caso num grafismo cuidado, próprio da sua imortalidade, hoje acessível à comunidade de língua portuguesa, numa ortografia antiga, mas facilmente entendível, que nos ajuda a compreender o valor do saber, da cultura e dos assentamentos que, embora burocráticos, são memórias do nosso passado comum, que nos ajudam a entender e a construir o futuro, com inscrições.

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