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De comboio para a capital

Numa viagem recente à nossa capital, decidi trocar o meu habitual meio de transporte. Ao invés de calcorrear a estrada que separa o Algarve de Lisboa, comprei um bilhete e percorri as linhas de caminhos-de-ferro que serpenteiam para a cidade à beira Tejo.
Admito, há anos que não andava de comboio no território nacional.
A viagem decorreu sem grandes sobressaltos e foi deveras confortável, admito. No entanto, a primeira hora e meia de viagem foi conduzida por alguma consternação e surpresa. À medida que o comboio avançava pelas linhas, não podia deixar de pensar em quando é que o comboio aceleraria. Parecia vagaroso e calma a sua viagem.
Após a passagem pela estação de Grândola, de repente, as paisagens tornaram-se mais indistintas e as árvores tornaram-se borrões dinâmicos na janela. O comboio disparara; Lisboa ficaria mais perto de forma acentuada.

Quando saí na estação, pensei no que vira. Por que carga de água o comboio arrastara-se tão vagarosamente no Algarve e Baixo Alentejo, apenas para disparar que nem uma bala de repente? Não obtive resposta para a questão, que me parece bastante importante.

Vivemos numa região amplamente turística e, não obstante termos o nosso próprio aeroporto, existe uma quantidade significativa de turistas que aterram em Lisboa com a intenção de virem para o Algarve. O facto da viagem parecer demorar mais do que aquilo que devia demorar não escapará, decerto, aos turistas. É que, ao contrário de nós, portugueses, que não utilizamos os comboios para as nossas deambulações, os Alemães, os Belgas, os Franceses utilizam amplamente os comboios para as suas viagens. Cada vez que usei as linhas do caminho-de-ferro no estrangeiro, encontrei comboios confortáveis, cheios, modernos e relativamente pontuais.

Para um algarvio é relativamente inconcebível utilizar um comboio nas suas viagens regionais, não obstante conhecer algumas pessoas que o utilizam todos os dias. Estamos formatados para o uso do automóvel nas nossas viagens porque o estado das nossas linhas de caminho-de-ferro é absolutamente deplorável. Já me chamaram a atenção para o facto dos nossos comboios regionais serem os mesmos que pontuavam na linha do Norte no final dos anos 80 e inícios dos anos 90.

Os nossos Caminhos-de-Ferro são negligenciados há anos; a falta generalizada de investimento transformou os nossos comboios em carroças decrépitas vagarosas que dão uma péssima imagem aos turistas que nos visitam.

Com maior investimento, talvez possamos olhar para os caminhos-de-ferro com outro olhar, como uma forma de potenciar e dinamizar o nosso próprio turismo, encurtando distâncias entre a praia e o interior da região. Talvez os próprios algarvios olhem de outra forma para a sua mobilidade.

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Um Comentário

  1. Aldemiro Manuel Estreia Pires

    Realmente é verdade que o comboio anda muito mais depressa depois de passar por Grândola, e não é de hoje nem de ontem que todos sabemos porque é que isso acontece. Creio que muita gente sabe e apenas esquece que o perfil da linha na zona da serra não é em nada igual ao ao restante trajecto, independentemente das linhas estarem degradadas como muita gente diz por não ter conhecimento do seu estado e crendo que a pequena velocidade praticada na serra se deve a isso, está completamente enganado porque só mesmo cortando a serra com viadutos , eliminando curvas e fazendo Túneis seria possível aumentar a velocidade de forma a que os comboios pudessem circular com a mesma velocidade que praticam ao passar a Grândola.
    Rematando um pouco podemos ter todos a certeza que nem nos próximos 50 anos isso será possível porque certamente não vai ser construída outra linha de forma a eliminar todos esses obstáculos criados pela natureza e pela carteira do nosso País que não tem dinheiro para renovar a frota de comboios que está cada dia que passa mais velha , degradada e reduzida de forma a que só os Museus e os sucateiros possam crescer.
    Para tudo há uma explicação lógica.

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