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Aviãozinho

No passado mês de maio, fui duas vezes de Portimão até Bragança, ida e volta, num aviãozinho de dezoito lugares. Não tinha ideia da dimensão do avião e, por isso, estava na expetativa de como seria a viagem. Curiosamente, um avião de menor dimensão parece ser mais assustador do que um avião comercial de grande porte. Não tenho conhecimentos de engenharia aeronáutica, mas acredito que são ambos seguros (ou inseguros) dependendo das nossas crenças sobre a natureza das viagens.

Antes do dia da partida, falaram-me de utentes descontentes e de utentes maravilhados. Tinha de decidir por mim. Apresentei-me à hora marcada no aeródromo de Portimão e informaram-me que o avião tinha dezoito lugares. Pensei, afinal já andei num igual a este, entre Lisboa e Casablanca, ida e volta, e no regresso até dormi. Vai ser uma viagem tranquila.

Entrámos para o avião e um dos passageiros, num dos bancos à minha frente, fez, em si, o sinal da cruz, enquanto (suponho eu) se entregava a Deus. Pensei, desta já estou safo, a proteção divina deste passageiro, atendendo às características do meio de transporte, vai certamente proteger toda a tripulação, os dois pilotos e os passageiros. Era muito azar que este homem crente estivesse de candeias às avessas com o divino. De Portimão até Cascais, são cerca de quarenta e cinco minutos, sobrevoámos terra até Aljezur e depois pela costa seguimos até Cascais. Uma viagem tranquila, certamente com o divino de sobreaviso.
Em Cascais fomos apeados, para o aviãozinho abastecer, depois retomámos aos nossos lugares e vamos até Viseu, cerca de uma hora de viagem. Sempre pela costa até à ria de Aveiro e depois sobrevoando vales e montes até Viseu. A oscilação do avião parece superior quando sobrevoa terra firme em relação ao sobrevoo do mar. Nunca tinha pensado nisto, existirá alguma relação? As oscilações do avião são como as oscilações das viaturas terrestes nas lombas e nos buracos nas estradas. Ao meu lado, uma jovem suava com a ligeira turbulência do avião e, de quando em vez, emitia um som de desconforto. Uma viagem tranquila, pelo menos para mim, estava a ser eventualmente difícil para aquela jovem. Nada é absoluto, tudo é relativo. Entre Viseu e Vila Real, são pouco mais de dez minutos.

Vila Real é a última paragem antes de Bragança, cerca de vinte minutos de distância, o destino final do voo. Sobrevoámos as cidades de Viseu, Vila Real e Bragança, todas me pareceram grandes, mas menores do que Portimão, apesar de não ter sobrevoado a cidade algarvia. Nessa manhã de sexta-feira desceram, em Bragança, dez pessoas, todas agradecidas ao homem crente que iniciou a jornada com o sinal da cruz. Tirámos os tampões (oferecidos pela companhia), por causa do barulho das hélices, e seguimos viagem até à cidade de Bragança, do extremo sul oeste até ao extremo norte este. A viagem de volta foi igualmente tranquila, mas não teve, pelo menos ao alcanço da minha visão, nenhum crente a proteger os demais.

As outras duas viagens, de novo ida e volta, foram algo nubladas (navegávamos dentro das nuvens) e com maior turbulência, mas nada de anormal para uma viagem de avião. Parece que, em certos dias, existe alguma agitação, mas como me disse um professor de Bragança, se os pilotos vão tranquilos que razões temos nós para viajarmos intranquilos.

Gostei do aviãozinho (a promessa do palavrão deu uma palavrinha).

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