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Meu Deus

Meu Deus. Calma. Não é desabafo. Este cantinho de Terra Ruiva não dá para segredos de confessionário. O meu Deus de hoje é menos celestino do que o Outro. E muito mais novo. Chama-se João. João de Deus.

Deus acorda estremunhado. Ergue-se do leito marmóreo. Agarra a sua viola toeira. Desafia a Amália, o Eusébio, a Sophia, o Guerra Junqueiro, companheiros de condomínio. Festa da rija? Ali mesmo? À luz das velas? Na Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa? Não pode, pá. E o Paddy Cosgrave, espantado, tá bem, Deus, ok, não volto a pedir para me organizarem jantares da web summit no teu poiso de pasmo eterno. Sorry, God!

Minto. Deus é temente a Deus. Não gosta de ser incomodado com festanças no solene condomínio que partilha com Manuel de Arriaga, Teófilo Braga, Sidónio Pais, Aquilino Ribeiro e os outros já aqui nomeados e mais alguns. Além disso está surdo. Não entende o irlandês. Não o conhece de lado nenhum.

Antes de se mudar para a Igreja de Santa Engrácia, Deus esteve a estagiar no Mosteiro dos Jerónimos, abandonado numa ala da Casa Pia, ao lado de Almeida Garret. As obras de “Santa Engrácia” já empastelavam há 286 anos. Deus só chega ao novo, velho, Panteão Nacional, em 1966.
Antes de ter encalhado nos Jerónimos e ser aconchegado em Santa Engrácia, Deus morava numa Travessa à Calçada da Estrela. Nos últimos meses de 1895 andava triste. A miocardite crónica tolhia-lhe o corpo que lhe mirrava dentro da batina puída. O único consolo era a sua viola toeira e a sua voz. Mas já não lhe apetecia cantar o Careca, olha que estás às avessas, tens o cu no travesseiro. Compreende-se que um homem de cabeleira farta e eriçada, em que o metrónomo das suas melodias, o coração, começa a falhar, não lhe apeteça cantar coisas divertidas. Só Tristezas, na marcha da vida que vai a voar, por esta descida, vai mais devagar. E Deus voa depressa demais. O último acorde soa às 9 horas e 45 minutos. 11 de janeiro de 1896. 66 anos imperfeitos.

Estou certo que ninguém ainda disse a Paddy Cosgrave quem é este Deus de Santa Engrácia. Haja alguém que lhe mostre o rosto de Deus. Um homem de Direito que ninguém conseguiu endireitar. Boémio. Estouvado. Cábula. Artista. Incrível poeta que continua a extrair-nos lágrimas extremadas de riso e de dor. Digam~lhe que Deus é um malandreco que acha que mulher não é rola que tenha um só par. Que Deus é um teso que nunca gastou cem mil reis “porque nunca os teve”, como notou um dos amigos, Manuel Teixeira Gomes. Que Deus via que a vil miséria no país só começaria a ser derribada pela instrução de todos os portugueses. Que Deus levou não sete dias mas seis anos a criar a sua Cartilha Maternal, para simplificar a aprendizagem das primeiras letras, tentando fender as trevas seculares da ignorância neste sítio acolhedor chamado Portugal.

Digam-lhe que, à escala diminuta do torrãozinho luso, o nosso Deus algarvio, tal como Tim Bernes, Bill Gates, Steve Jobs, Mark Zuckerberg, entre muitos outros, é também um pioneiro a encurtar mundos de treva, silêncio, resignação e desconhecimento.

Digam-lhe, já agora, que este Deus, como o Outro, não morre, embora pareça dormitar em jantares à luz das velas. E que, em 8 de Março, só faz 188 anos. Em São Bartolomeu de Messines, continua a tinir o seu primeiro gritinho de liberdade. Paddy, do you know São Bartolomeu de Messines? God is alive. Deus está vivo. E recomenda-se.

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