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Opinião

Resoluções por via postal

António Eugénio
Última Atualização: 2018/Jan/Seg
António Eugénio
8 anos atrás
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O augúrio de um novo ano é muito recorrentemente acompanhado de vigorosas resoluções, objetivos que ambicionamos cumprir durante o novo ciclo de translação deste nosso planeta azul à volta do Sol. Estas resoluções surgem após ponderação e reflexão sobre o ano transato. Curiosamente, não são só as pessoas que as fazem; as empresas também o praticam, através da orçamentação e do planeamento estratégico para o ano posterior. Tal e qual como as pessoas, algumas empresas decidem emagrecer. Os CTT decidiram que seria altura de perder peso durante o ano de 2018.
Perdoem-me a analogia algo rude, mas parece-me um pouco apropriado quando, nos primeiros dias de 2018, os CTT anunciam o encerramento de 22 balcões um pouco por todo o país.

A justificação dada para o encerramento dos balcões coincide com as respostas normalmente ouvidas neste contexto: adequação da rede do serviço à procura e a uma maior eficiência. Estas justificações seriam mais do que aceites, de uma forma ou de outra, numa qualquer empresa. Afinal de contas, a primeira responsabilidade fiduciária de uma empresa é para com os seus acionistas e os seus lucros. A questão é que os CTT não são uma empresa qualquer.

Os CTT eram, até pouco tempo atrás, uma empresa pública, responsável pelo serviço postal em Portugal. A instituição foi alvo de uma privatização concluída em 2014, passando a ser totalmente uma empresa de capital privado. Não obstante, os CTT continuam a ter o monopólio do serviço postal em Portugal, um serviço que, embora não sejam poucos os futuristas que clamam que o mesmo esteja às portas da morte, ainda é fundamental para o país. No interior do país, em crescente desertificação e envelhecimento demográfico, os CTT cumprem um papel fundamental no acesso das populações a serviços essenciais. Nalgumas localidades, o posto dos correios é o único ponto onde os idosos podem recolher as suas reformas sem terem de percorrer largos quilómetros, bem como procederem ao pagamento de certos serviços. Nesses locais, o posto dos correios assume o papel de verdadeira instituição de interligação social, uma componente essencial no tecido dessa comunidade.
Dada a magnitude do evento, o encerramento de um posto dos correios deve ser avaliado por mais do que critérios de maximização do lucro dos acionistas, ou mera otimização económica; deve ser medida por critérios de impacto na comunidade onde se insere.
Em comunicado, os CTT indicaram que os seus serviços de proximidade não estão postos em causa, e que os postos encerrados não acarretarão qualquer impacto de maior nas comunidades onde se inserem. No entanto, segundo o jornal “Eco”, os encerramentos podem não ficar por aqui.
Os CTT acabarão por ser um péssimo exemplo de privatização de um serviço público. Mais do que o facto do serviço postal estar em declínio face às novas notificações eletrónicas, a verdade é que a empresa não tem sabido aproveitar o aumento do comércio eletrónico e o tão aclamado banco postal ainda não é rentável. A cotação da empresa levou um rombo assinalável. O ridículo da situação é que os próprios CTT remuneraram aos acionistas um dividendo superior aos seus lucros durante 2017. É essa a verdadeira razão para o encerramento dos balcões menos rentáveis.

Estas lógicas economicistas, absortas de qualquer noção de impacto económico-social, têm de ser debatidas e contestadas. Correm rumores sobre um possível encerramento da Segurança Social na vila de São Bartolomeu de Messines. No que toca a encerramentos de serviços essenciais, nunca se sabe quando nos poderá calhar a fava.

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PorAntónio Eugénio
Natural de São Bartolomeu de Messines, nascido em 1983. É licenciado em Economia e Mestre em Marketing pela Faculdade de Economia da Universidade do Algarve, tendo efectuado pós-graduações na área das Finanças Empresariais e da Fiscalidade. É membro efetivo da Ordem dos Economistas e da Ordem dos Contabilistas Certificados. Gestor de profissão, interessa-se especialmente por desenvolvimento regional e territorial e é doutorando em Gestão de Inovação e do Território na Universidade do Algarve.
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