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Quando os últimos podem ser os melhores

Há todo um ensinamento na fábula da lebre e da tartaruga (que acabou por ganhar a corrida) que nós, os residentes do Concelho de Silves, teríamos todo o interesse em apreender.
Ando a pensar nisso, desde os primeiros dias de junho, quando uns aprazíveis feriados trouxeram animação às ruas, cafés e supermercados. Entoações estranhas, sotaques diferentes e o lugar de estacionamento do costume ocupado por veículos desconhecidos é sinal seguro de que estamos no verão. Isto, claro, na visão dos que estão cá para trás, mais junto à serra do que ao litoral (E como uns escassos quilómetros que nos separam da costa fazem toda a diferença!)
Passados os feriados, a animação não foi embora, sinal de que começaram as férias escolares e portanto as férias para muitas famílias. Casas fechadas, quase ou todo o ano, abrem-se agora, com jovens e reformados, netos e avós, pais e filhos, primos e primas, famílias inteiras. A família residente abre os sofás, estica a mesa e acolhe a família alargada. Janta-se nas varandas e conversa-se na rua e nas noites quentes há gente a passear até tarde. Até setembro será assim, nas nossas vilas e aldeias.

Os estudos que a Região de Turismo do Algarve tem promovido para saber quem são, onde andam, o que fazem e do que gostam os visitantes da região confirmam esta perceção: o turismo residencial e familiar tem uma expressão significativa no Concelho de Silves.

Não temos aqui (atrevo-me a dizer que ainda bem) as enchentes do litoral, mas temos os que daqui saíram para longe, os que regressam todos os anos, muitos dos quais por sua vontade daqui não teriam saído. Estes que vêm abrir as portadas das casas fechadas ou que dormem nos sofás e nos sótãos da família, não fazem férias com tudo pago no local de origem. Este turista-na-sua-terra vai ao supermercado local, compra as sardinhas no mercado municipal e bebe a bica no café da rua, enquanto os miúdos comem gelados. Compra o jornal na papelaria e quando pode vai jantar ao restaurante da esquina. É verdade que as suas despesas são normalmente as necessárias, com uma pequena extravagância quando pode ser… mas todas as moedas que gasta são na sua terra, e dá-se aquele fenómeno de revitalização necessário à sobrevivência do pequeno comércio, das pequenas e médias localidades.

Desprezar este turista/visitante/filho da terra temporariamente enraizado é um erro grosseiro. Este vai voltar sempre que possa. Este vai ficar o máximo de dias.

As estatísticas também o dizem: neste turismo residencial (em casa própria, alugada, ou de familiares), os visitantes prolongam por mais tempo a sua estadia e voltam com mais frequência.
O concelho de Silves com a sua nesga de costa severamente descaracterizada (Armação de Pêra) e ameaçada de destruição (Praia Grande), tem de olhar cá mais para trás. Como apregoam as teorias de motivação: “tornar as desvantagens em vantagens” e o popular “quem não tem cão caça com gato”.

Por razões várias chegamos a um ponto em que em termos de desenvolvimento turístico “normal” (entenda-se aldeamentos, hotéis, campos de golfe e centros comerciais, em espaços atulhados e com construções feitas em série), ficamos para trás. A vantagem que isso nos trouxe é agora evidente: temos observado os erros cometidos, os excessos, a destruição do património e do território. No Concelho, com a maior parte do nosso território intacto, temos condições de investir e valorizar a nossa genuinidade.

Podemos apregoar a tranquilidade das nossas noites e o sossego dos nossos dias. A “pasmaceira” de que tantos se queixam pode ser um produto turístico dos mais valiosos.

Se apostarmos ao mesmo tempo nas condições de melhoria de vida dos residentes, nas infraestruturas da rede de água e esgotos, na rede viária, na rede escolar, no acesso à saúde, nos transportes públicos, teremos o melhor dos dois mundos.
Em todos os locais onde o turismo cresceu em larga escala, ouvimos falar de problemas, do descontentamento das populações residentes, da falta de capacidade das autarquias e das infraestruturas para atenderem às necessidades de tantas pessoas. Como já conhecemos o problema e as suas causas estão identificadas, não o queiramos replicar.

Não quer isto dizer que não se faça promoção turística. Mas só até ao ponto que nos permita continuar a ser diferentes. Com casas que se abrem ao calor do verão e netos a chamarem pelos avós, temporariamente afastados da solidão.

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