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Editorial

Toma lá 4 000 camas

Terra Ruiva
Última Atualização: 2017/Jun/Qui
Terra Ruiva
9 anos atrás
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No Algarve tão massacrado por um urbanismo descontrolado e à mercê de interesses privados existe um pequeno reduto, descrito como único na região.
Existe, mas por pouco tempo mais.
Este reduto natural está a ser comercializado como uma “oportunidade única de promoção turístico-imobiliária pela sua qualidade, localização e envolvência natural altamente conservada”.
Então, no espaço “natural altamente conservado” precisamente porque tem estado a salvo de interesses imobiliários querem construir hotéis, aldeamentos, centros comerciais e campos de golfe. Camas, muitas camas: 4 000.

O pontapé de saída para esta aberração é dado em 2007 pela Câmara Municipal e Assembleia Municipal de Silves que aprovam o projeto. Apenas dois proprietários contestam os termos da expropriação feita pela empresa promotora, o Ministério Público perde a ação que interpõe contra a Câmara de Silves para obter a nulidade da decisão da Assembleia Municipal que aprova o Plano de Pormenor da Praia Grande e o assunto passa praticamente desapercebido.

Em 2012 o assunto ganha visibilidade pública. Na Câmara de Silves, apenas a vereadora Rosa Palma se opõe publicamente ao projeto mas está isolada. Várias associações ambientalistas avançam para Tribunal, tentando travar o gigantesco projeto imobiliário.

O executivo CDU, agora com Rosa Palma na qualidade de presidente, decide não contestar essa ação. Os vereadores do PS (2), mais os vereadores do PSD (2) votam contra e impõem a sua maioria ao executivo da CDU (3). O processo burocrático continua a avançar. As obras podem começar a qualquer momento.
O processo tem andado emperrado, por via da falência da Finalgarve, empresa com ligações ao Grupo Galilei que por sua vez era uma espécie de herdeira dos negócios do BPN… Agora o projeto turístico está nas mãos do Millennium BCP, há uma corretora no mercado a promover um negócio de 200 milhões.
Com tudo aprovado anteriormente, o atual executivo da Câmara Municipal não tem margem para negociar ou evitar o que quer que seja.
Se consultarmos o Terra Ruiva e as declarações que os responsáveis da Câmara Municipal foram fazendo ao longo destes anos veremos que destacam dois pontos: os 1516 empregos que seriam criados e os 35 milhões de euros que a Câmara de Silves, poderia receber de taxas, licenças e impostos, citando a presidente Isabel Soares e o vereador Fernando Serpa.

As questões ambientais são inexistentes. O facto de estarmos a entregar os dois últimos quilómetros de costa a empreendedores que só visarão o lucro rápido até esgotar este filão e partir em busca de outro num qualquer sítio, não faz soar nenhuns alarmes.

São muitos milhões que justificaram esta decisão da Câmara Municipal de Silves e não me digam que tendo o poder de decisão do seu lado, não poderia ter negociado, imposto condições e restrições, barreiras e defesas. Aceitaram “satisfeitos” como disse o presidente da Câmara, Rogério Pinto, em 2013, quando foi feita a apresentação pública do então chamado “Parque Ambiental da Praia Grande”, em Silves. Numa apresentação tão transparente que não permitiu que jornalistas e público presente pudessem colocar questões!…
Na minha opinião (e de tempos a tempos convém lembrar que este é um texto de opinião) o agora chamado Eco-Resort da Praia Grande é um autêntico atentado aos valores do património natural daquele local e do Algarve. O “Eco – Resort” da Praia Grande é muito bem desmascarado pela associação Almargem que lhe chama “uma esverdinhada aldrabice”. É dos tais casos em que só mudam as moscas…

Quando tudo estiver construído = destruído na Praia Grande que desculpa vamos dar? Que não sabíamos? Que não podíamos imaginar o impacte a todos os níveis de um empreendimento deste género? Que não vimos já os resultados deste modelo de “desenvolvimento”?
Este futuro arrepia-me…

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TAGGED:editorialPaula BravoPraia Grande
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1 comentário
  • Carlos Guerreiro diz:
    11 de Agosto, 2017 às 23:35

    Gostei de ler este editorial de Paula Bravo sobre a entrega dos dois últimos quilómetros de costa a empreendedores que só visam o lucro rápido…
    É como diz, lá se vai o que resta e pouco ou nada há a fazer. Estes negócios não são recentes, mas com o Algarve de novo em ebulição em que o número de camas soma e segue, não restará um só palmo de costa por estas paragens. E para quem conhece bem o concelho de Silves por nele ter vivido na sua juventude, é com mágoa que dirigindo-me para o Atlântico o que mais vejo é construção em volumetria não correspondendo à beleza paisagística quase infinita que retenho do passado. Se houvesse sensibilidade para as questões ambientais, o desenvolvimento seria harmonioso e hoje o litoral do concelho estaria mais aprazível e convidativo. O que ainda resta vai ser “devorado” porque é preciso rentabilizar pessoas e empresas. Assim foi decidido, mal ou pessimamente decidido. O “massacre” do Algarve parece querer instalar-se de novo. Isso será o pior que nos pode acontecer.

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