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De Messines para a Eternidade

QUANDO, em 1995 fui convidado para preparar uma homenagem ao poeta João de Deus, para a comemoração do centenário da morte do pedagogo/poeta, logo nessa responsabilidade senti, com uma natural “vaidade”, de o ser messinense e admirador do poeta/educador.
Determinei o tempo de Verão, uma sabática, acordada.

Entrei em contactos com a neta do poeta, Professora Maria da Luz de Deus. De seguida, preparei o guião. Visitas a Messines com os dois técnicos. Contactos com uma empresa de fretes aéreos: filmagens em Messines, Lisboa e Faro. Pedido à Diocese do Algarve, o Bispo D. Manuel Madureira, para entrar nos espaços do palácio episcopal. Tudo em ordem.
Nós, messinenses, sempre ganhámos e sustentámos o culto da nossa infância lendo os poemas do nosso João, mais de cariz religioso e, no dia 8 de Março, o depósito de flores fornecidas dos quintais das vizinhas, junto ao edifício onde o poeta habitara, na sua juventude, na placa, exposta, desde o início do século XX.

PARIS, início dos anos oitenta, do século passado, fora a assistir ao congresso, na Sorbonne, sobre pedagogos e educadores, do século XIX, desde o francês Celestin Freinet ao brasileiro Paulo Freire. Uma multidão de gente, numa maioria de educadores europeus. Mas o que mais me surpreendeu foram o francês Paul Robin e o catalão Francese Ferséculo XIX, em estudos avançados e libertários estabelecidos.
LISBOA– Percorremos os passos de João de Deus: Mosteiro dos Jerónimos, primeiro repouso. Seguindo a Santa Engrácia, novo Panteão Nacional, em “companhia” dos Sábios do seu século. Tomámos um café, no terreiro do Paço, o café lendário de Lisboa. Passámos pela Assembleia da República, onde nos tempos das Cortes, o deputado Dr. João de Deus, se sentia, nesse incómodo de rejeição, para onde os políticos de SILVES o empurraram. E onde, um dia, Camilo Castelo Branco o encontrou num prolongado bocejo, de fastio. Passámos pelo Rossio, Maria da Luz, apontando o dedo, pergunta-me: “Conhece a sátiro do “paisano”.

1950 nos Jerónimos. A neta Maria da Luz de Deus, a depor, junto ao túmulo, um ramo de flores, numa passagem do 8 de Março.

Estamos na sala de estar, na casa que fora dos seus bisavós. E começa a descrever todos os cantos da casa museu: Aqui é a sala de todas as lembranças, quadros oferecidos pelos seus admiradores, aqui recebia os seus mais directos amigos, como Antero de Quental, Camilo Castelo Branco, Manuel Teixeira Gomes, Teófilo de Braga. Os republicanos, Gente do Povo, muitos operários que vinham aprender a ler. A minha avó continuou nessa atitude pedagógica, em nome do seu marido, após a sua morte.
Fomos ao quarto, onde o poeta faleceu. Aqui recebeu o meu Avô, o rei D. Carlos. E aqui sofreu pelas ofensas da Câmara dos deputados, do governo, em recusarem a sua Cartilha Maternal em ser aceite nas escolas. Sinto-me incomodada em falar na afronta que fizeram ao meu Avô. Sabe, deve saber a percentagem de analfabetos de portugueses, nesse fim de século. Por fim a neta do poeta levou os rapazes a filmarem o quarto do poeta, em todas informações, o dia da morte !
Fomos até à igreja vizinha, a Basílica da Estrela, onde o poeta saiu para o cemitério dos Prazeres, mas o Povo de Lisboa, os estudantes de Portugal, levaram o corpo mortal do educador rejeitado para o caminho dos Jerónimos, numa multidão da inteira Lisboa.
O Educador, apesar de ter funeral nacional, decretado pelo primeiro ministro, Hintze Ribeiro, só seria reconhecido como pedagogo da sua Cartilha, com a implantação da república.
Consultando os documentos publicados na época, para que a Cartilha fosse considerada como método do ensino escolar, há inúmeros, homens e mulheres que deixaram os testemunhos preciosos, tantos nacionais, como estrangeiros: “ A Instrução do Povo”, documento apresentado à Câmara dos Deputados, representação à Câmara dos senhores deputados, publicado no Diário do Governo, n.º 163, de 26 de Julho de 1897. Mas nada demoveu as autoridades do país mais atrasado da europa.

O POETA. Temos o homem que escreveu os mais belos sonetos, depois de Camões, Ficou apertado entre o romantismo e o realismo. O seu “Campo de Flores”, reeditado em 2002, num total de 221 páginas. É um livro à descoberta. Poesias líricas, Odes, Elegias, Idílios, Dísticos, Cânticos, Fábulas, Sátiras e Epigramas, etc…etc..
João de Deus, o poeta de toda a pluralidade, tem uma sátira, publicada no último quartel do século XIX:“EL-REI – Chegou do Vidago”, numa relação antecipada aos “Vampiros” de José Afonso, meados do século XX.

MESSINES – O poeta nasceu em S. Bartolomeu de Messines, a 8 de Março de 1830. É certo que há uma certa simbologia, com o padroeiro dos hospitalares, S. João de Deus. Mas não haverá uma ligação ao João de Deus, nascido em Silves, que foi figura da igreja, no século XIII, chegando à hierarquia católica, como Arcediaco da Sé de Lisboa? Mera hipótese.
No tempo do nascimento do ilustre Messinense, o reino vivia em guerra e guerrilha. A guerra dos reais irmãos, Pedro e Miguel, em que os pequenos defendiam os interesses dos grandes. O menino João como reza a estória, teria nascido na casa de gente pobre, no largo que separa as ruas da Estalagem/e Mina. Com a guerra, o pai, de ferreiro passou a comerciante. Foi um homem de sonhos para os filhos, naturalmente,,, Seria, certamente, um pai de “Statu Quo”. Dois dos filhos, mais velhos foram padres, sendo esse o projeto de continuidade para o rapaz João. Mas o homem põe e dispõe. João renunciou. Como nos informa o seu jovem amigo, que o visitava, em Lisboa, Manuel Teixeira Gomes, no seu livro “Inventário de Junho” , que o prior da terra se queixava do menino João lhe namorara a afilhada….
O Messinense que tem no país, o seu nome nas ruas de Portugal, deve, como já foi, ser figura do Concelho, festejado em feriado municipal.

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