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Opinião

O desemprego do Homem

António Eugénio
Última Atualização: 2017/Mar/Qui
António Eugénio
9 anos atrás
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Há umas semanas li um artigo sobre o impacto da tecnologia no mercado de trabalho, onde se argumentava que os avanços em campos como a automação e a inteligência artificial prometiam a extinção de quantidade substancial de trabalho e consequente substituição por máquinas, computadores e robots. O mesmo artigo indica que 47% dos empregos na América são “computorizáveis”; substituíveis por tecnologia, em áreas da saúde à contabilidade.

Não é de todo descabida a possibilidade; a tecnologia tem substituído postos de trabalho um pouco por toda a parte, desde os primórdios da Revolução Industrial. Já na Inglaterra do século XIX, os Luditas destruíram teares mecânicos como forma de protesto, receando que os seus postos de trabalho fossem substituídos por tais gerigonças de roldanas e rodas dentadas. E realmente, em grande medida, foram-no.

A verdade é que os avanços tecnológicos a que temos assistido nos últimos 250 anos trouxeram-nos, enquanto espécie, uma prosperidade sem paralelo. Sempre que a promessa da disrupção tecnológica ameaçava despojar-nos de emprego, eis que as velhas ocupações são incrementadas em produtividade ou substituídas por um ramo completo de novas ocupações.

Num exemplo caricato que vi numa fotografia sobre Nova Iorque do início do século XX, o despertador humano que andava de porta em porta a acordar as pessoas às horas desejadas foi substituído por um despertador mecânico. A ascensão da internet e do email criou problemas aos correios um pouco por todo o mundo, mas o seu aparecimento permitiu o advento de novas profissões que proliferam nesse novo ecossistema. Nos anos 50, as empresas costumavam empregar grandes quantidades de “computadores”, os quais não correspondem ao ideal moderno de máquinas, mas sim de homens e mulheres cujo único trabalho era o de “computar” à mão ou através de máquina calculadora antiquada, qualquer cálculo que fosse necessário. Hoje em dia, esse ofício é desempenhado facilmente por qualquer computador por uma fração do tempo, que são manuseados por uma nova estirpe de trabalhadores que programam esses computadores.
A promessa da obsolescência do trabalho humano e substituição por máquinas sempre pairou entre nós, mas ainda não se concretizou. Então porque o recente temor? Há quem aponte ao facto de que estas novas tecnologias têm criado níveis de produtividade a um nível tão elevado que as nossas competências de as adotar não têm crescido ao mesmo nível. Assim, à medida que a tecnologia avança, há uma série de pessoas que não acompanham e não encontram empregos adequados às suas capacidades. Tal traduz-se num desemprego crescente. À medida que o ritmo da tecnologia cresce há um maior número de pessoas incapazes de se adaptar. Podemos estar a assistir a um fenómeno paradoxal: num ambiente cada vez mais produtivo e inovador, os rendimentos medianos tenderiam a descer num âmbito de desemprego crescente.

Como consequência desta realidade, um pouco por todo o mundo discute-se a possibilidade da criação de um rendimento mínimo universal; um montante a ser distribuído por uma população incapaz de encontrar emprego num mundo que já não precisa de trabalho humano.

John Maynard Keynes, o economista inglês da metade do século XX, acreditava que a humanidade alcançaria níveis de produtividade tão elevados que não precisaríamos de trabalhar muito, e que a espécie humana dedicar-se-ia às artes e ao doce ócio nos seus fartos tempos livres. A sua promessa não parece ter sido cumprida; talvez porque Keynes não tenha percebido que o trabalho humano é inacabável e que por trás de cada revolução industrial se escondem novas ocupações, num tornado de destruição criativa. Independentemente de todos os receios e aspirações, a humanidade não ficará sem trabalho.

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PorAntónio Eugénio
Natural de São Bartolomeu de Messines, nascido em 1983. É licenciado em Economia e Mestre em Marketing pela Faculdade de Economia da Universidade do Algarve, tendo efectuado pós-graduações na área das Finanças Empresariais e da Fiscalidade. É membro efetivo da Ordem dos Economistas e da Ordem dos Contabilistas Certificados. Gestor de profissão, interessa-se especialmente por desenvolvimento regional e territorial e é doutorando em Gestão de Inovação e do Território na Universidade do Algarve.
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