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Opinião

Sem rumo

António Guerreiro
Última Atualização: 2017/Jan/Seg
António Guerreiro
9 anos atrás
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Iniciei o ano de 2017 em Armação de Pêra. Uma festa familiar com todos, desde crianças até idosos, passando por jovens, adultos e turistas ou residentes estrangeiros nas nossas terras. Todos presentes, todos festejando a chegada do ano de dois mil e dezassete, para o mundo ocidentalizado. Foi curioso presenciar (não necessariamente por esta ordem) a inquietude inicial dos mais idosos com a hora marcada para a abertura dos festejos, a alegria dos jovens adolescentes locais no reescrever de canções, alterando a letra d’ Os Filhos da Nação para Os Filhos de Armação, em função de vivências e de irreverências, o momento dos fogos, estrelas cadentes imaginadas, as festas vividas pelas famílias ou em pequenos grupos e o desaguar de pequenos lagos de gente que inundaram o largo da praia dos pescadores.
A animação dos festejos de passagem de ano pela banda de orientação folk-rock Quinta do Bill motivou em mim uma reflexão provocativa sobre a possibilidade de retomar outras vivências, de resgatar os tempos em que assistia a espetáculos, em recintos ao ar livre, com cantores, músicos ou grupos portugueses. Armazenados em gavetas e outros arrumos estão artefactos pessoais, sociais ou culturais que sustentam as minhas memórias, como no caso do primeiro álbum desta banda, Sem Rumo (1992). São dezenas de CD que marcaram uma época, as músicas de sempre e os novos grupos portugueses, a par com uma ou outra novidade musical.
É um labirinto de memórias esquecidas, dispersas em gavetas, armários, estantes e outros lugares, devidamente construído para desnortear, para inviabilizar um retorno linear ao passado. Repus a tocar o referido primeiro álbum na única aparelhagem que funciona e reouvi-o, provavelmente após dezenas de anos, com a certeza de o ter ouvido dezenas de vezes. Sei que o ouvi muitas vezes, a minha memória fez uma ligação com a pequeníssima intervenção musical que quase finaliza o álbum, Besanas Bar, ambiental sem autoria Bairro Alto (2 da manhã).
Não alimento o discurso das alegrias passadas, acredito sempre nas promessas de futuro, mas posso equacionar (e criticar ferozmente) o que me encaminhou até aqui, à acomodação do ar-condicionado da própria habitação em troca do frio vivo da noite. Reflexão que faço no plano teórico da comodidade do lar aquecido. Tem estado um frio gelado nestas noites e manhãs dos primeiros dias de janeiro!
São muitos os anos que estreitam a possibilidade de navegar sem rumo, sem norte ou sem sul, de me perder na busca dum deslembrado trilho. Nunca me aventurei para além deste caís seguro, em que navego, que domino e que me domina. Sinto-me manietado pelas responsabilidades profissionais, pelos encargos domésticos e sociais, e descortino sempre justificações plausíveis para reeditar as rotinas conhecidas e já vivenciadas nos últimos anos e renegar uma possibilidade dum outro futuro, dum ano verdadeiramente novo. Mesmo assim, vou assumindo novas responsabilidades pessoais e profissionais e eternizando esta sensação de falta de tempo para viver.

Os sons primeiros da banda invadem o espaço, enquanto escrevo, prometendo um ir sem rumo, na madrugada da caminhada, ainda por desenhar, todo um novo caminho. São sons que nos transportam para paragens mais a norte, mas eu vivo a sul. É sempre preciso iniciar um novo caminho! Felicidades para a caminhada de 2017.

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PorAntónio Guerreiro
Natural de Silves, nascido em 1962, é doutor em Educação Matemática, professor e diretor da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve. Os seus interesses atuais nos tempos livres são a escrita, a leitura e a fotografia.
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