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524 anos

Decorreu há poucos dias, um dos eventos mais tradicionais de Silves: A Feira de Todos os Santos, ou somente a “Feira”. Desde 1492, conforme nota do Município de Silves, que se realiza este evento na cidade de Silves. À data, por via de um privilégio real, Silves viu reconhecido o direito de fazer uma Feira e, consequentemente, ganhou novo impulso na sua economia.
Passando por várias espaços, desde a “cerca da feira”, à zona ribeirinha, até ao lugar onde agora se encontra, para ficarmos apenas até ao século XX, a Feira sempre despertou os mais acesos debates quanto à sua localização, as pessoas que vinham e um certo orgulho em termos uma das melhores Feiras do Algarve.

Muito tempo passou e muitas mudanças se foram operando na nossa sociedade. As tradicionais Feiras deixaram de ter o impacto de outrora. A novidade que traziam deixou de ser tão desconhecida e mais esse momento em que as famílias se congregavam e amigos se reviam deixou de ser colocado em evidência.
Longe parece que estão os tempos em que as crianças recebiam as chamadas “feiras” dos seus familiares. Essas pequenas quantias que se destinavam a fazer compras na Feira, fosse de roupa ou apenas para os divertimentos que surgiam como o grande encantamento destes dois/três dias de alegria.
Hoje a Feira surge como uma pálida recordação do que era. Nem o tempo nos ajuda a lembrar esses, então, frios dias da Feira, em que as Senhoras estreavam os seus casacos compridos, mas que nestes dias, dificilmente, veremos alguém usá-los.
A Feira, tal como tantas outras coisas da nossa sociedade, deixou de ser a peça de charneira que foi. O ponto de encontro de gerações, o lugar privilegiado da troca comercial, a grande animação da Cidade e do Concelho. Tudo isto surge quase como um mito urbano, estranho para as sociedades actuais, que olham para estes eventos como um folclore de outros tempos.
De tudo isto, na Feira de hoje, uma simples coisa nos faz voar a esses tempos do passado, onde todos fomos crianças: o cheiro das redondas filhós, adoçadas pelo açúcar aromatizado com a canela. De facto a comida, para lá da função alimentícia, é memória, e isso sempre nos levará a essa Feira.

Talvez tenhamos na Feira, sua revitalização ou não, um dos maiores desafios para os executivos camarários, pois penso que o sucessivo enfraquecer deste evento não é uma maldição eterna.

Recordo a forma como a Câmara de Faro conseguiu, suplantando tiques e preconceitos, fazer da Feira de Santa Iria (criada cerca de cem anos depois da Feira de Silves) um evento de referência na animação da capital do Algarve.
Importa defender a preservar a nossa memória e identidade, e a Feira de Todos os Santos de Silves, é peça constituinte de ambas para este Concelho, pelo que seria uma mais-valia criar algo na Câmara que desenvolva estratégias para que esta Feira seja memória indelével das gerações futuras. Fica o alerta para as campanhas políticas que em breve se iniciarão bem como para os dirigentes que, há alguns meses, se afadigaram em pensar eventos para a chamada época baixa.

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