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Todos temos direito à nossa terra

Perante um país empobrecido, frente a um futuro sem perspetivas e uma possibilidade bem real de nenhum sonho ser concretizado, o que fazer?
Quero partir, diz uma personagem. Fica, responde a outra. Para quê?– pergunta a primeira. É preciso resistir, se todos partirem, este lugar – o lugar dos nossos avós, o lugar das nossas raízes – o sítio onde pertencemos por direito irá desaparecer…
Já não há nada aqui, nada que nos permita cumprir os sonhos!– replica a primeira… Se todos partirem, nem a memória restará…, avisa a outra.
Este é o tema do confronto que divide a personagem da peça “Partir Suspenso”, de Sara Adamopoulos, que há dias foi estreada pelo Grupo de Teatro Penedo Grande.
Esta peça levanta um dilema nacional e que de muito perto nos toca. Perante a realidade do desemprego jovem, da falta de perspetivas das vilas e aldeias do nosso interior, vivendo os problemas das escolas distantes, dos cuidados de saúde dificultados, dos transportes inexistentes, da cultura inacessível… perante a enorme legião de pessoas de meia idade a viver de empregos mal pagos, perante o número esmagador de idosos que quase só conhecem a solidão e uma magra reforma… o que fazer?
Já todos vimos as imagens, na televisão ou na nossa vida privada, de pais trémulos agarrados aos filhos em estações de comboio ou aeroportos, de filhos agarrados ao nada, de avós presos ao desespero. Quase todos com a mesma esperança. Que volte depressa quem parte.
Todos temos direito à nossa terra.
Mas a realidade, a economia, as finanças, Bruxelas ou outros interesses empurram cada vez mais pessoas para as terras onde se cumprem os sonhos de um emprego melhor, uma vida quiçá mais digna, ou mais realizada profissionalmente.
Pouco a pouco as terras deixam de ser de alguém. Tornam-se fábricas fechadas, ruas vazias, sonhos que não chegam a levantar voo.
É preciso que alguém resista, diz a personagem que quer ficar. Ficar para quê? Para passar fome?– responde a outra.
Muitas pessoas que conheço dizem-me, não sei como é que consegues viver em Messines, especialmente depois de teres estado fora tanto tempo…
É a minha terra, digo. Eu sou a personagem que quer resistir.
Mas a resistência não é uma noção sentimental e poética. Tem amargas desilusões, desejos interrompidos, sonhos abandonados, cansaço e muitas quedas. Ao fim de algum tempo, chega-se à conclusão de que só há uma forma útil de resistir.

Só conseguimos resistir se formos capazes de intervir, de realizar ações concretas a favor dessa mesma terra e da sua comunidade. Ações que nos ofereçam a oportunidade de retribuir à nossa terra.

A nossa terra dá-nos o nosso lugar, permite-nos manter a memória dos avós, dá-nos raízes e uma identidade para sempre. Na nossa vida, enquanto pessoas e cidadãos, temos de criar um espaço e uma vontade de retribuição por essas prendas inestimáveis.

Dar à nossa terra um pouco do tanto que ela nos dá – é o caminho para possibilitar que se cumpram os sonhos dos que não desejam partir.

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