A hora mudou e os dias pequenos de inverno (no sentido da amplitude entre o nascer e o pôr do sol) rotinam a minha vida entre o trabalho (de docente e de formador) e algumas atividades sociais (e agora também políticas) e culturais. A rotina é isso mesmo, um conjunto de hábitos, costumes ou procedimentos que se repetem, de forma mais ou menos fixa e automática. Por vezes, nos dias aparentemente rotineiros, surgem novidades, diferentes e originais, nomeadamente no campo que apelidei de cultural (quiçá político).
Um dos acontecimentos surpreendentes ocorreu no final do XXV Encontro de Coros da Sociedade Filarmónica Silvense, no Teatro Mascarenhas Gregório, após a atuação do Grupo Coral Ossónoba (cujo programa integrou um conjunto de arranjos a partir de músicas de José Afonso), em que um dos elementos da organização, aludindo à intencionalidade política e cultural desta intervenção do grupo coral, gritou: Viva a Liberdade! Este momento encantador teve a força de uma declaração de resistência, de certeza de futuro, com os valores de abril.
O outro acontecimento fascinante foi pessoal, na interação com o livro James de Percival Everett, publicado nos Estados Unidos em 2024, e em Portugal em 2025. James reinterpreta As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, na ótica do escravo Jim que se autoliberta como James.
Esta nova visão da viagem de um jovem branco (que foge de um pai violento) e de um escravo preto (que foge para evitar ser vendido e para tentar libertar a sua família) pelo rio Mississípi, em tempos negros de escravatura, não é uma aventura, como pensadas por Tom Sawyer ou Huckleberry Finn, mas é uma luta pela liberdade, dignidade e sobrevivência de todos os seres humanos.
A leitura e a escrita são obsessões, totalmente íntimas e totalmente livres, do escravo Jim, do homem livre James (inteligente, letrado e consciente da sua realidade, que se faz ignorante nas interações com os outros como estratégia de resistência e de sobrevivência) e, por essa razão, completamente subversivas.
A voz e a escrita pessoal de uma figura silenciada, como um escravo, demonstra a importância de reexaminar a história a partir de novas perspetivas, a partir dos povos e dos silenciados, e de questionar as narrativas estabelecidas, antigas ou atuais, a propósito da inevitabilidade da existência de desigualdades.
A posse de um lápis na mão de um escravo (como na capa do livro da edição portuguesa) torna-se um ato de resistência e um meio de reivindicar a sua própria história.







