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Os primeiros jogos de futebol em SB Messines há 100 anos

Aurélio Cabrita
Última Atualização: 2025/Nov/Seg
Aurélio Cabrita
6 meses atrás
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A União Desportiva Messinense completou no passado dia 6 de outubro, 50 anos. Todavia, a prática de futebol na freguesia remonta aos anos de 1920. Recorde-se que o futebol, como hoje o conhecemos, nasceu em Inglaterra em 1863, tendo sido introduzido em Portugal pouco depois, primeiramente na Madeira (1875), por marinheiros ingleses, e depois no continente, através dos irmãos Pinto de Basto. Oriundos de uma família abastada, estes últimos haviam estudado em Inglaterra e no regresso, Guilherme Pinto de Basto, em 1884, trouxe uma bola, vindo, dois anos depois, através dos seus irmãos Eduardo e Francisco, uma outra. A prática desportiva consolidou-se em Portugal por volta de 1888, ainda que nesse tempo ela fosse restrita a uma pequena elite endinheirada.

Relativamente ao Algarve, há quem defenda que o primeiro jogo terá ocorrido em Lagos, logo em 1882, com marinheiros da esquadra inglesa que ali aportava com regularidade. Já em Faro, terá sido em 1907 que os jovens marinheiros da corveta «duque de Palmela», um barco escola ancorado em Faro, levaram a efeito um primeiro jogo naquela cidade e incentivado este desporto, de tal forma que a 1 de abril de 1910 foi fundado o Sporting Clube Farense.

Em São Bartolomeu de Messines, segundo o jornal «O Messinense» na sua edição de 1 de fevereiro de 1924, foi Francisco Nunes Barbosa, pai da poetisa Maria Antonieta Júdice Barbosa, o impulsionador do primeiro clube na terra, em 1923, o «Águia Foot-Ball Club». Natural de Ervidel (Aljustrel), mas residente em Beja, aí jogava, enquanto avançado-centro, no «Foot-Ball Club Glória ou Morte». Domiciliado em S. B. de Messines por aqueles anos, com o objetivo de montar uma fábrica de moagem para a firma Remechido & Mendes, Lda. (note-se que um dos sócios, João António Mendes, era natural de Beja), incutiu nos jovens messinenses o gosto pela modalidade.

Um dos primeiros desafios ocorreu a 30 de julho de 1923, em S. B. de Messines, defrontando o vizinho «Grupo Foot-Ball Altense». Pelo Águia alinharam os jogadores: Gouveia, Bartolomeu, F. Clemente, Farinha, Barbosa (cap.), J. Horta, Carapeto, Baptista, Silva, Álvaro, J. Ruivo. A arbitragem ficou a cargo de José Mendes Remechido. A partida terminou com o triunfo da equipa visitante, por 2 a 1. O periódico «Folha de Alte», na sua edição de 15 de agosto, descreveu o jogo, justificando o resultado «graças à péssima arbitragem do Sr. Remechido e á má incorreção duma parte do publico que, desconhecendo o jogo e os seus regulamentos, primou por se manifestar hostilmente contra o Grupo visitante». Os messinenses foram acusados de mau perder e de deslealdade, não só as canelas dos jogadores do Altense ficaram ensanguentadas, como aqueles foram apupados, com assobios e altos gritos de «abaixo os altenses», quando percorriam algumas ruas da aldeia.

Em fevereiro de 1924, por dissidências do Águia, havia-se formado uma outra agremiação, o «União Foot-Baal Club».

  1. B. de Messines contava desta forma com duas formações e segundo o jornal «O Messinense», de 1 de fevereiro, uma outra estava em formação, o «Onze à Hora». Todavia, advinha um problema, a ausência de um campo de futebol. No periódico era mesmo criticado o subsídio, de 500$00, que a Câmara Municipal de Silves atribuíra para o campo de futebol daquela cidade e a ausência de qualquer comparticipação para Messines: «é vergonhoso que um centro, populoso, activo e tão grande contribuinte como este [S. B. de Messines], a Câmara Municipal, não tenha quem olhe pelo desenvolvimento do mesmo».

Uma afirmação que mais de cem anos depois não perdeu atualidade, já que o campo não tem, há vários anos, as medidas regulamentares para aquela prática.

Mas voltemos à história do «Foot-Ball» em Messines. Em agosto de 1924, os capitães do Águia, Francisco Barbosa e do União, João de Encarnação e Sousa, dada a decadência dos dois grupos, ponderaram juntar as duas equipas. Certo é que pouco depois surge o «Messinense Foot-Ball Club». Grupo que sairá vencedor do jogo levado a efeito com o «team» de Tunes, no campo daquela estação, por 2 a 0. Alinharam pelo Messinense: Armando, Estreia, J. Alves. J. Lamas, Barbosa, Ruivo, Florêncio, Sousa, Claúdio Eliseu e Farinha.

Nas comemorações do 5 de outubro do mesmo ano, em S. B. de Messines, surge, além do Messinense, o Messines, os quais se defrontaram entre si, com a vitória dos segundos. Estes defrontarão ainda o Silves, ficando empatados 2-2. Todavia, em setembro de 1925, a imprensa volta a noticiar o «Águia Foot-Ball Club», por exemplo em Salir.

Somente quatro anos depois voltamos a encontrar referências à prática de futebol na terra, através de duas agremiações, o «Sport Club Messinense”, num jogo entre o grupo «11 branco de Silves», e do «11 à Hora», que fora jogar a S. Marcos, vencendo em ambas as contendas as equipas da terra de João de Deus, conforme noticiou o «Folha de Alte», em setembro de 1929. Estes grupos formavam-se com relativa facilidade, desde logo pelo elevado número de jovens na aldeia e desfaziam-se com a mesma velocidade. O regresso de Francisco Barbosa a Beja, nos finais de 1924, terá refreado a modalidade por entre os messinenses.

Em agosto de 1931 voltou a surgir o «Messines Futebol Club» e de entre vários jogos, o realizado com o «Imortal F. Club» de Albufeira, a 2 do mesmo mês, viria a preencher as colunas do «Folha de Alte», até maio do ano seguinte. A vitória surgiu à equipa da casa, por 2 a 1, mas o Imortal não concordou com o resultado. As acusações foram várias e partiram de parte a parte, os messinenses acusaram mesmo um albufeirense de tentar corromper o guarda-redes do Messines, com 50$00, para que deixasse entrar uma bola do Imortal.

Pag. 2 Jornal Folha de Alte de 15 de outubro 1933

Em maio de 1932 o jornal «Folha de Alte» noticiou a composição da direção do «Sport Club Messinense», que apelidava de «provisória», por considerar que os mesmos «pouco percebem das regras de futebol». Eram eles: presidente – Vitorino Rio Júnior; secretário – Manuel Patrício Reis; tesoureiro – M. Martins Gonçalves; vogais – José Miguel Horta e Salvador R. Monteiro; capitão geral – João Baptista Gil e capitão do grupo – António do Rosário Junior.

O mesmo periódico dá conta de um jogo entre o «Sport Club Messinense» e o «Club Desportivo Altense», em Messines, a 22 de setembro (3-0) e depois em Alte, a 5 de outubro (2-0).

No ano seguinte, surge o «Sporting Foot-ball Club de Messines», cujo primeiro encontro se deu com a equipa altense, a 28 de agosto, saindo vencedores estes últimos, por 1-0. A equipa messinense era constituída pelos defesas: Arsénio, Alfredo Ramos e António da Palma; médios: Ilídio (capitão), Edmundo, Joaquim Matias; avançados: M. Borges, Eliseu, F. Palma, J. Lamas, e E. Lopes. Porém, a sua existência terá sido breve, pois em maio de 1934, num novo jogo com o Desportivo Altense, a agremiação de Messines é designada novamente por «Sport Club Messinense». A «Folha de Alte» publicou um resumo deste último encontro, cujo autor foi um jovem, na época com 23 anos, de seu nome Teófilo Fontainhas Neto. O jogo terminou de forma abrupta, empatado 1-1, sem se esgotar o tempo regulamentar, após vários incidentes, como a invasão do campo pela assistência, a agressão entre jogadores, ou ainda as palavras impróprias proferidas pelo público. Escreveu o futuro industrial: «o jogo continua violento e deixou de ser futebol», para no fim concluir: «o que se fez em Alte não foi futebol, não foi uma luta desportiva desenrolada com lealdade. Foi sim uma briga violenta em que rapazes môços se degladiaram numa luta inglória. Isto não é praticar futebol, não é revigorar fisicamente a raça e nem é próprio da mocidade contemporânea».

Eram outros tempos em que as regras eram mais difusas, não havia tradução para português dos termos ingleses, os jogos eram anunciados na hora através de foguetes e frequentemente havia uma banda filarmónica a atuar durante os mesmos.

Em janeiro de 1934 o periódico «Folha de Alte» cessou a sua publicação. O messinense José Nobre Ruivo vinha a ocupar o cargo de editor do mesmo, motivo para que as referências a Messines fossem constantes, além de que Ruivo era também jogador, e sem a «Folha de Alte» deixamos de ter notícias sobre os jogos e os respetivos clubes existentes em São Bartolomeu de Messines. Não obstante, em 1939, segundo o «Anuário Comercial de Portugal» existiam o «Sport Clube Messinense» e o «Sporting Foot-Ball Clube Messinense». Na imprensa, somente na década de 1960 voltamos a encontrar notícias de um clube de futebol na aldeia. Mas essa é já uma outra história…

Francisco Barbosa e mulher Maria do Nascimento Barbosa

Nos primórdios da modalidade em S. B. de Messines o nome de Francisco Nunes Barbosa é fulcral, todavia tantos outros foram fundamentais, como aqueles que referirmos e que resgatamos do esquecimento, para que aquela prática ganhasse raízes na comunidade.

Parabéns e longa vida à União Desportiva Messinense, de todos os clubes que existiram foi aquele que atingiu até hoje maior longevidade.

 

Ps. Não podemos deixar de lamentar que as entidades municipais tenham ignorado as comemorações do 200º aniversário da Feira de Setembro, um certame que faz parte do património cultural imaterial da freguesia e da identidade dos messinenses.

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PorAurélio Cabrita
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nasceu em 1978. Licenciado em Engenharia do Ambiente, é mestrando em História do Algarve e técnico superior no Município de Odemira. Tem publicados diversos artigos e livros sobre a história local e regional. É também colaborador no jornal on-line Sul Informação.
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