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Opinião

Uma urgência verde

Frederico Mestre
Última Atualização: 2025/Jul/Qua
Frederico Mestre
11 meses atrás
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Fala-se muito de alterações climáticas. Mas estas mudanças não são apenas tema de notícias ou debates distantes — estão a acontecer aqui, e já se fazem sentir no nosso dia a dia. Em Portugal, e especialmente no Algarve, os impactos são evidentes: temperaturas médias mais altas, mais dias de calor extremo, menos chuva e o consequente risco de secas prolongadas. O concelho de Silves não é exceção.

Mas, que será que esta realidade tem impactos reais na nossa vida e saúde? A resposta é, infelizmente, afirmativa: um estudo realizado no Alentejo, por exemplo, concluiu que, entre 1980 e 2015, 2,3% da mortalidade observada (cerca de 5296 mortes) estava, de algum modo, associada ao calor. Esta mortalidade pode, em cenários extremos, vir a sofrer um aumento até cerca de 16% em 2100.

Mas será que as árvores contribuem para manter temperaturas mais suportáveis no espaço urbano? Um outro estudo efetuado em 293 cidades europeias, para avaliar o potencial das árvores urbanas na redução da temperatura das cidades, concluiu que no sul da Europa as árvores podem contribuir para baixar a temperatura em até 4ºC aproximadamente, enquanto, no Centro da Europa, esse valor pode ir até aos 12ºC. Outro estudo, desta vez em 93 cidades europeias, constatou que aumentar a cobertura arbórea para até 30% pode reduzir a temperatura média do ar em espaços urbanos em cerca de 0,4 °C.

Mas qual o processo que promove a redução de temperatura? Para além do evidente, a sombra criada, a temperatura é reduzida principalmente pela evapotranspiração (processo combinado de evaporação da água do solo e da transpiração das plantas, resultando na transferência de água da superfície terrestre para a atmosfera em forma de vapor), e a redução no armazenamento de calor em materiais urbanos como o alcatrão (que absorvem e retêm calor durante o dia, liberando-o à noite, contribuindo para o efeito de ilha de calor urbana; as árvores, por terem menor massa térmica, armazenam menos calor e contribuem menos para o aquecimento noturno).

É, por isso, imperativo tornar o espaço urbano mais agradável, minimizando os impactos das alterações do clima na saúde. O Plano Intermunicipal de Adaptação às Alterações Climáticas do Algarve, de 2019, recomenda, entre outras medidas, o aumento das áreas verdes, recorrendo preferencialmente a espécies autóctones, para aumentar as áreas de infiltração de água (fazendo frente a eventos extremos de chuva intensa) e o conforto térmico em meio urbano. O projeto Além Risco, um projeto Alentejano que visava dotar as cidades da região de mais árvores, faz recomendações claras quanto às espécies a usar, dependendo do espaço disponível, da disponibilidade de água e do tipo de sistema (pequeno bosque, jardim, etc.).Por exemplo, se houver muito espaço e pouca água podem usar-se sobreiros, azinheiras, pinheiros mansos. Se houver maior disponibilidade de água podem usar-se espécies como o freixo, choupo ou o salgueiro.

Como alguém que aprecia caminhar pelas ruas, gostaria de ter, em Messines, mais espaços verdes verdadeiramente eficazes. Creio que, a esse respeito, há ainda muito a fazer nesta vila. Dou exemplos: o jardim municipal, frente à Escola E.B. João de Deus, que tem um potencial enorme, tem relativamente poucas árvores, com o parque infantil, os bancos e a área relvada frequentemente expostos ao sol intenso. Outro exemplo é a própria escola, onde árvores foram cortadas e outras sofreram podas excessivas. Mas, de um modo geral, no resto da vila, não há verdadeiramente ruas arborizadas (com raras exceções).

A plantação de árvores é um modo relativamente barato de minimizar os impactos negativos de eventos climáticos extremos na nossa saúde, tornar o espaço urbano mais apelativo e mais amigável para a biodiversidade urbana. É um benefício enorme com custos relativamente pequenos. Creio que esta reflexão poderá ser particularmente útil para quem começa a desenhar programas eleitorais para as autárquicas.

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PorFrederico Mestre
É natural de Moura, no Alentejo, licenciado em Biologia, mestrado em Biologia da Conservação e doutorado em Biologia pela Universidade de Évora. Desenvolve a sua actividade profissional como investigador pós-doutorado na mesma universidade. O seu trabalho incide sobre os impactos que as alterações climáticas e dos habitats naturais têm na biodiversidade. Tem outros interesses, com a fotografia e o urban sketching. Acredita que a ciência deve ser comunicada de modo claro, numa lógica de partilha de conhecimento com o público em geral.
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