Sobre a razão de escrever no Terra Ruiva (sugerida pela Paula Bravo aos colaboradores nesta edição dos 25 anos), estou a pensar que se cruzam diferentes motivos. O primeiro é o jornal em si, bem estruturado, sério e sustentado numa excelente experiência jornalística por parte de quem o dirige. Tem igualmente muita e diversificada opinião e textos que muito valorizam a história local.
Sou um colaborador recente e nem sempre regular; não sei bem quando comecei, mas sei que a amizade que tenho pela Paula e a admiração pela sua persistência em manter um jornal de qualidade no concelho estará na génese.
Por outro lado, a nostalgia que, com o avançar da idade, aprofunda o tempo, trazendo à superfície do presente memórias e vivências do passado. Daí algumas crónicas sobre os filmes da juventude e o cineteatro, tristemente votado ao abandono.
Em simultâneo, por feição de carácter e conhecimento, um sentido crítico, que ganha acutilância na escrita, não por mero criticar, mas por exigência e lucidez de espírito de quem deseja mais e melhor para a terra onde nasceu e cresceu.
Por isso, vou regressando e cuidando da velha casa e do quintal. Assim, ainda hoje me lembro das árvores, preocupo-me se têm falta de água; e os frutos colhidos continuam a ser suculentas fontes de ligação de geração para geração. As árvores têm raízes na terra e os homens nas casas, os pais e os avôs como grandes copas protetoras.
Silves é das cidades objetivamente mais belas do Algarve e do país. Na noite pacata, o silêncio da vida cedo recolhida nas casas, ao percorrer as suas ruas adormecidas, admirando a harmonia urbana do centro histórico, que é praticamente quase toda a cidade, chego a pensar que a preservação da sua beleza está precisamente no esquecimento e no atraso de que muitas vezes nos queixámos.
Mas não! Para quem tem mais saudades do futuro do que do passado, penso que a par desta tranquilidade seria importante alguns rasgos de modernidade, novos investimentos e a criação de novas dinâmicas cívicas e culturais. Uma cidade excessivamente insuflada de vida nos grandes eventos (feira medieval, festa da laranja), mas esvaziada de vida própria, mais parada no dia a dia, torna-se uma cidade estranhamente habitada e de desabitada alma social.







