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Editorial

As coisas como elas são

Paula Bravo
Última Atualização: 2024/Jul/Qui
Paula Bravo
2 anos atrás
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À beira da praia dos Pescadores, em Armação de Pêra, ouvi ao lado uma voz feminina, num tom snobe, desdenhando da vila e da praia. E “nem tem lava-pés”, dizia, arrastando as palavras.

Um pouco mais tarde, junto ao novo passadiço que no troço inicial se encontra agora quase privado de água, muito diferente da paisagem de há poucas semanas atrás, onde a água brilhava de azul e era visível a presença de peixes e aves, oiço mais comentários depreciativos, quer quanto à obra executada pela Câmara Municipal, quer pela seca que afeta a Ribeira de Alcantarilha.

Não intervim em nenhum dos casos, embora fosse essa a minha vontade. A facilidade com que se fazem certas observações incomoda-me cada vez mais. Suponho que por estar a ficar velha. E cansada, a necessitar de férias.

Mas também porque, diga-se a verdade, não conseguiria responder de forma cordata à mulher que queria lava-pés abertos ao público numa altura em que a região atravessa uma seca extrema. Assim como não poderia falar de forma educada a quem, junto à Ribeira de Alcantarilha, via apenas a consequência, sem refletir sobre as causas.

E ainda mais: sem reflexão alguma sobre até que ponto somos – cada um de nós – culpados pelo que está a acontecer ao clima. Ouvimos nas notícias que cada mês que tem passado continua a bater recordes de temperatura, sabemos que as barragens no Algarve estão com mínimos históricos e que não chove quando deveria chover, vemos que praticamente deixou de haver as estações temperadas, como a primavera e outono e por todo o lado a Natureza dá-nos sinais, muitos deles inquietantes, sobre as mudanças que já começaram.

E no entanto… e no entanto, ao contrário do que aconteceu na expressão de Galileu,  não nos movemos. Sejamos sinceros. A maior parte de nós não se moveu. Possivelmente fazemos a reciclagem dos plásticos, vidros e cartões, um hábito que já se estabeleceu… mas e o que mais? Alguma coisa que faça a diferença?  Por exemplo, “compras verdes” em “empresas que primam pela sustentabilidade”?

É um bom princípio mas é necessário estar atento às denúncias acerca de empresas e produtos que afirmando-se “verdes” e/ou “sustentáveis” mais não fazem do que explorar a nossa vontade de sermos socialmente responsáveis, sem ter de abrir mão de algumas comodidades ou hábitos.

Um dos exemplos significativos tem a ver com a nossa relação com o vestuário, que produz uma quantidade astronómica de lixo e é concebido por uma indústria que é um verdadeiro problema, em termos ambientais. Ultimamente, para atenuar esses impactos, ou a nossa (in)consciência, muitas marcas aceitam de volta roupas já usadas. Mas várias organizações ambientais têm denunciado que a maioria das roupas doadas ou devolvidas às marcas acabam em mercados de revenda, em países africanos, ou em lixeiras que estão a assumir proporções difíceis de imaginar (ao Mercado de Kantamanto, no Gana, chegam semanalmente 15 milhões de peças de vestuário sendo que a maioria acaba na lixeira).

No fundo, o que acontece é que  passamos o problema a outros, longe dos nossos olhos. É como a mulher que  reclamava contra a ausência de lava-pés. Terminadas as férias, a questão da seca no Algarve será para ela apenas uma notícia em rodapé, uma trivialidade que logo se esquece…

As organizações que se dedicam às questões da sustentabilidade são unânimes em defender que a indústria da moda só poderá sustentável quando consumirmos menos, deixarmos de comprar tanta roupa. Mas toda a nossa sociedade está projetada ao contrário, num mundo em que a imagem (seja ela verdadeira, com filtros ou mesmo falsa), se torna cada vez mais relevante.

Quanto à água, que se antevê que venha a ser o “ouro azul” das próximas décadas, só a redução do desperdício e a poupança no consumo nos poderá ajudar, como medidas imediatas. O que também requer uma nova mentalidade, alterações nos gostos e costumes, mudança na gestão dos espaços verdes e, principalmente, a aceitação de que o mundo está a mudar e que os nossos comportamentos têm que se adaptar em nome de um presente mais equilibrado e de um futuro em que as gerações vindouras tenham a possibilidade de usufruir de um planeta generoso.

Neste verão de julho, numa altura em que a maioria de nós anseia por férias e descanso, são problemas com que não nos queremos preocupar. Mas não esqueçamos a realidade.

 

 

 

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PorPaula Bravo
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascida em 1963. Licenciada em Comunicação Social. Desde 1986, trabalhou em vários órgãos de comunicação nacionais e regionais. Dirigente associativa. Fundadora e diretora do Terra Ruiva desde abril de 2000.
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