Durante os dois anos de pandemia, em que andámos bem mascarados, fomos irrepreensíveis cidadãos. Talvez, apenas, um pouco menos educados. As circunstâncias tiveram muita força.
Aprendemos a cumprimentar a cotoveladas e sopapos suaves. Mantivemos a distância higiénica com muita elegância. Deixámos de partilhar as nuvens de espirros que antes explodiam teimosas do narigal para a atmosfera. atchim… chega-te para lá!
Aprendemos também a lavar as mãos fora do alívio de águas nas retretes de Portugal. E a policiar os que o não faziam. ca ganda porca! olha ó javardo! Lavo daí as minhas mãos nunca mais se ouviu. Ficámos solidários com todos. E solitários com a família no mesmo tecto. chega-te para lá, já não te posso ver! ai podes, podes. não há outra paisagem.
Em teletrabalho fomos perfeitos. Apresentávamo-nos em traje formal. Fomos civilizados. O patrão ou a chefe de divisão apreciavam. Blazer e gravata, da cintura para cima. Pijama e pantufa, da cintura para baixo. Tínhamos muito jogo de cintura. O tampo da mesa do computador era a divisória de segurança entre o contemplar e o adivinhar. querias ver mais!? era o vias.
Se as febras esturricavam na cozinha o colega, no outro lado do zoom ou do meet, não as cheirava. Impossível as suas papilas gustativas ficarem aos saltos com os manjares de omeletes de fiambre que nos iam sustentando o corpinho. O desconhecimento nunca dá apetite. Nem fastio.
As tecnologias digitais ainda não estão avençadas, perdão, avançadas para partilhar fedores e cheirinhos entre ecrãs. É pena. Na próxima pandemia, talvez seja possível sentar à mesma mesa virtual todos os colegas do escritório, cada um a comer mais do que o outro.
Para entrar para o supermercado, purificávamo-nos com álcool geloso. Antes o álcool era mais líquido e geladinho, nos bares e discotecas. Era para ingerir e não para esfregarmos as mãos de descontentamento. Até a cabecinha estonteava a cada decilitro. Desaprendemos de abanar quadris e peitoris na discoteca. Confinados em casa, não dava jeito embirrar com os móveis. até porque os do ikea são frágeis.
Na pandemia, raramente saíamos à rua. Quando o fazíamos éramos corteses. Não nos viam os sorrisos, mas sorríamos. Os beiços delas deixaram de ser acariciados pelo batom de uso. Mal se notavam os sofisticados perfumes «equivalenza» que emanavam do rosto.
Com as máscaras, apenas os pés-de galinha ficavam à vista. Coitadas das galinhas. Nunca tantos pezinhos foram comidos durante a quarentena. O que vou inventar para o jantar? pensavam os homens desesperados. Sempre eles, coitados, a fazer a comida. E elas, descoitadas, refasteladas no sofá irritadas com o árbitro e deliciadas com os glúteos do Ronaldo. georgina que se cuide.
Tínhamos também a suprema liberdade de, na rua, não cumprimentar um amigo ou conhecido. o gajo não me está a conhecer. e quem vai, vai, quem está, está. Não fizemos inimigos, por consequência. Nunca uma máscara estragou uma amizade.
Depois da enésima variante da ómicron, a pandemia finalmente morreu. Calou-se na nossa memória. Nunca existiu. Já esquecemos os milhares de mortos. E os milhões, temporária ou definitivamente, sem cheiro nem paladar. Continuamos a não distinguir a sandes de courato da lagosta que nunca suará à nossa mesa.
Voltámos a ser felizes. Os nossos umbigos já tinham saudades de sol e de água salgada ou doce nos charcos fluviais. Já não precisamos de pensar na infelicidade dos outros.
Voltámos a encarreirar aos magotes, em bicha de pirilau, para o Algarve. A vociferar contra todos, a esticar o dedo do meio. Agarrados ao volante dos carros atulhados com três mudas de roupa interior e outras tantas de exterior. A rebuzinar que nem uns perdidos, filho da mãe! coitado, ninguém lhe apresentou ainda a mãezinha do outro.
Os desmascarados voltaram a atulhar os supermercados, de novo com as mãos por higienizar. O frigorífico do T Zero, para oito ou dez pernoitáveis, precisa de ser bem aprovisionado. Regressámos ao cagulo dos festivais de Verão, às bolas de Berlim e aos gelados olá! tudo bem? tudo!
A pandemia fez-nos mais humanos. Ninguém o duvida. Mais impacientes. Mais arrogantes. Mais egoístas. Mais parvos. Inequívocas qualidades humanas.
Há quem fuja à regra. Muitos e muitas. E há quem continue a não ter regras. Muitas e muitos. O meu estudo da minha opinião diz-me que estas conclusões são rigorosas. Para quem delas desconfia, garanto que não me subtraí ao universo da amostragem. Se não for eu a falar bem de mim, como poderei falar bem de outros que não conheço.
Voltámos a ser felizes. A invasão da Ucrânia já não faz manchetes. A morte e gangrena de milhares de ucranianos, e milhões de deslocados, provocada pelo homenzinho barricado no kremlin, foi trocada pela caridosa inflação.
A nossa felicidade está à vista de todos. Até dos infelizes. É generosamente apoiada por quem nos vende, ao preço da uva mijona, a gasolina, o gás, a eletricidade, os produtos de supermercado.
Conforta-nos saber que temos a solidariedade perpétua e altruísta de quem tão bem se governa. E nos permite andar altivos e gordinhos de contentamento. viva o verão! verão? veremos.
O Inverno irá chegar. ainda tem o Outono pelo meio. e o que está no meio?







