Tal como a corrente do Arade, que por esse tempo ainda trazia muita água, formando bons pêgos como o do Valadinho e da Nogueira, onde nos banhávamos nos dias quentes de Verão, também os filmes continuavam a desaguar na cidade acompanhando a corrente da vida e os afluentes da liberdade artística e política.
Ainda em 1974, outro filme que vimos sem ter idade para ver foi Aquele Inverno em Veneza/Don`t Look Now um thriller psicológico protagonizado por um casal (Donald Sutherland e Julie Christie) que viaja para Veneza depois de ter perdido a filha, com muito suspense e algumas cenas bem assustadoras. O filme é também famoso pela cena de sexo entre o casal, uma das mais sinceras da história do cinema pela cumplicidade entre os atores. Considerado um dos melhores filmes britânicos de sempre, não sei o que terá perdurado em nós para além da imediata perturbação e da noite mal dormida. Nesse ano feliz e atordoado de tanta liberdade, é também exibido Um Filme Doce, polémico e estranho filme surrealista do jugoslavo Dusan Makavejev com extremos momentos subversivos e artísticos. No qual, só para terem uma ideia, uma das protagonistas dirige um barco carregado de doces e açúcar, atraindo homens e rapazes com sexo, morte e conversa revolucionária.
Também por essa altura, passou por Silves, Tudo a Nu, a revista que Francisco Nicholson tinha em cena no 25 de abril de 1974. Ator, dramaturgo, encenador, homem do teatro e da televisão, Nicholson foi um dos grandes inovadores do teatro de revista, com textos e encenações muito criativas, críticas e ousadas É o Fim da Macacada, Tudo a Nu ou Não Batam Mais no Zezinho (escrita com Henrique Santana, Mário Zambujal, Rogério Bracinha e Augusto Fraga) foram algumas das peças do Parque Mayer que andaram em digressão pelo país e que mais sucesso lhe deram.
Nessa noite, se bem me lembro, por ser teatro, fui com os meus pais para a plateia, que estava cheia e rejubilando por um espetáculo tão apreciado e tão pouco visto na província. Duvido é que os meus progenitores imaginassem que a ousadia do Tudo a Nu por vezes fosse tão literal, como na coreografia da peça em que as bailarinas dançam nuas cobrindo o sexo com uma folha de parra. A minha mãe ainda sorriu para mim, doce e complacente, o que me deixou ainda mais envergonhado por estar a ver toda aquela nudez ao seu lado.
A adolescência ia avançando e o entusiasmo pela música, essa arte maior e imediatamente vibrante, esticando as cordas da emoção, foi ganhando espaço em mim. Dos musicais dos anos 70, destaco as óperas rock Jesus Christ superstar (1973) filme musical britânico, dirigido pelo cineasta canadiano Norman Jewison; e Hair/Cabelo filme norte-americano de 1979, realizado por Milos Forman*, com John Savage, no papel de um jovem do Oklahoma recrutado para a guerra do Vietname e que é adoptado por um grupo de hippies. São musicais com belas canções e abordando os temas do pacifismo e da contestação à guerra, sob o slogan da paz e do amor. Influenciados por esse mundo novo em movimento no grande ecrã e pelas modas da época também alguns de nós deixavam crescer o cabelo.
Em 1975, a ópera rock Tommy, criada pela banda inglesa The Who**, surpreende um puto cada vez mais freak, não só pela música como pelos ambientes psicadélicos criados pelo realizador Ken Russel. O filme é a alucinante história de um estranho rapaz (Roger Daltrey), cego, surdo e mudo devido a um trauma de infância que se torna campeão de pinball e mais tarde rock star. O elenco conta com diversas participações especiais de músicos e atores famosos, Ann-Margret, Oliver Reed, Jack Nicholson***como psiquiatra, Tina Turner no papel de Acid Queen, Eric Clapton, Elton John fabuloso em Pinball Wizard.
Por esses anos, a malta jogava flippers/pinball na casa de jogos do Marinho, debaixo das arcadas da Câmara, aí também havia uma jukebox onde púnhamos discos a tocar com moedas. Então usava o cabelo comprido e encaracolado como o vocalista dos Who (que cantava See me Fell me no filme).
*Milos Forman, cineasta checo mudou-se para os Estados Unidos em 1968. Dois dos seus filmes, Voando Sobre um Ninho de Cucos e Amadeus, estão entre os mais célebres filmes da história do cinema e deram-lhe o óscar de melhor diretor.
**Curiosamente, no mesmo ano de 1975, Jack Nicholson representou de forma brilhante o papel de doente mental na obra de Milos Forman Voando Sobre Um Ninho de Cucos.
*** Quadrophenia (1979) é outro filme baseado no álbum homónimo do grupo rock The Who. que também passa pelo cinema de Silves. O filme trata dos conflitos de identidade da juventude britânica da classe trabalhadora em meados da década de 1960.






