Cito de memória uma cena que li num livro e que nunca mais esqueci… Num tribunal, o juiz pergunta a uma testemunha se confirmava que o caso se tinha passado em frente a uma casa branca. Ao que a testemunha respondia que o caso efetivamente se tinha passado em frente a uma casa com a fachada pintada de branco. Mas que não poderia dizer que era uma casa branca porque não vira a traseira, nem os seus lados.
Esta procura da palavra exata, da descrição plena acompanha-me desde sempre. Essa procura trouxe uma evidência: que não é possível alcançarmos a realidade se não estivermos dispostos a procurarmos todos os seus lados. Não basta ver a fachada… é preciso percorrer toda a casa…
Recordo outro episódio, este recente, no auge da pandemia. Durante algum tempo, quando escrevia as notícias diárias sobre os números da covid, retirava uma pequena alegria quando via baixar o número dos internados, em particular o número de ventilados. Levei algum tempo a relacionar esses números com os dos óbitos e a perceber que essa estatística estava tão ligada à vida como à morte, que nem todos os que saíam da lista voltavam para casa… Só estava a olhar para um lado dos números…
No dia em que escrevo decorre a guerra que nos anunciaram nas últimas semanas. E hoje de manhã ouvi uma troca de palavras elucidativa. Na televisão, um diretor da SIC e um militar português trocavam argumentos. E o militar explicava o ponto de vista da Rússia. “Disparates”, “disparates”, repetia o diretor. Cansado das interrupções, o militar azedou, podem ser disparates, e eu também não concordo com o que tem acontecido, mas num conflito temos que ouvir os dois lados e compreender o ponto de vista de cada um deles. Para nós são disparates mas não são para aqueles que os defendem.
Ainda eu refletia sobre isso e já o diretor repetia “disparates” e se lançava numa exposição de argumentos que colocavam nos píncaros todos os autoproclamados defensores da democracia desconsiderando totalmente (e tolamente) todos os que têm uma outra visão do mundo.
Essa dificuldade de olharmos o outro, e acima de tudo tentarmos entender como é, o que pensa, o que de nós pode levar e o que nos pode dar tem as suas raízes entroncadas na origem da humanidade. Não se manifesta só em conflitos bélicos, está no nosso dia a dia e é hoje ferozmente e brutalmente alimentada pela desinformação, pela ignorância, pela arrogância de quem quer ver o mundo à sua imagem e semelhança, formatado pelo pensamento único – sempre e sempre ancorado no convencimento de que o meu é o melhor, o mais justo e certo…
Nós, os que aqui vivemos, duplamente privilegiados por pertencermos à Europa e a um país como Portugal, olhamos para o que se está a passar, com empatia, solidariedade e tristeza pelas situações humanas que se desenrolam, mas talvez mais preocupados com as ondas de choque que já começaram a fazer-se sentir, em particular no aspeto económico, um sector em que somos particularmente débeis e vulneráveis, num país dependente de exportações, de salários mínimos e de precariedade.
Ninguém é inocente, ouvia há dias dizer. E a grande maioria de nós recorda ainda os conflitos mais recentes, do Iraque ao Afeganistão, do Kosovo à Síria, Líbia ou o que ainda decorre no esquecido Iémen, lembramo-nos dos falsos pretextos e conseguimos identificar as razões económicas e políticas que sustentaram essas guerras cujas consequências ainda estão a ser vividas por milhões de pessoas. Tão importantes como nós. Com um pensamento tão válido como o nosso, embora nos possa parecer “disparates, disparates”, como tantos deles dirão de nós… “disparates, disparates”…
No dia em que este jornal chegar às mãos dos leitores a situação poderá ter mudado. Oxalá que as manchetes dos dias anteriores já tenham trazido a palavra Paz. Mas se não servir para mais nada este texto, que nos deixe a reflexão primordial, a de procurarmos entender o Outro, o mundo para além do nosso… e que, caso não o possamos aceitar, ao menos saibamos porquê.







