No quase pós-pandemia as iniciativas culturais estão progressivamente a regressar, um pouco por todo o lado, demonstrada pela inevitável sonoridade dos eventos nos grandes centros urbanos. Por exemplo, é possível fazer uma pesquisa de peças de teatro em Lisboa, e, neste momento, existem pelo menos cerca de dez peças em cena. No Algarve, existem algumas intervenções em Faro, Loulé, Albufeira e Portimão. Teremos um país a duas ou mais velocidades, a dois ou mais tempos? Falei do teatro, mas poderia falar de outro tipo de intervenção artística e, provavelmente, iria obter os mesmos resultados. Dizem-me, fazemos iniciativas e não aparece ninguém. É verdade, em alguns casos, como presenciei ao integrar os poucos espectadores que assistiram ao excelente espetáculo de jazz com The Quartet no átrio do Teatro Mascarenhas Gregório, em Silves.
Voltando a Lisboa, por exemplo no teatro A Barraca, a nova peça Elogio da Loucura tem os seguintes horários: quinta e sexta, às 19 horas e 30 minutos; sábados, às 21 horas e 30 minutos e domingos, às 17 horas. Esta diversidade de horários está pensada para maximizar o potencial público. Numa capital, em que, nos dias de semana, muitos regressam às periferias, é natural pensar ir ao teatro (pelas 19:30) ainda antes de ir, definitivamente, para casa, provavelmente numa outra margem. Ao sábado, em princípio, é diferente, pois o dia tem outras lógicas de funcionamento e de ocupação profissional. E ao domingo, um fim de tarde no teatro poderá ser uma alternativa, após o almoço de domingo, para muitos que só têm este dia para o convívio familiar. Acredito que, estes horários, foram estudados, e não em função dos atores, mas dos espetadores e, obviamente, do necessário retorno financeiro.
E o que é que isto tem a ver com Silves? Na minha opinião se a autarquia ou outro promotor quiser verdadeiramente criar públicos e desenvolver uma política cultural, não elitista, na cidade e, por maioria de razão, no concelho, terá de, para além de dinheiro, estudar, planear, divulgar e monitorizar.
Estudar as diferentes realizações no espaço concelhio para envolver todos: as dinâmicas de trabalho, os horários em que os pais têm de estar a dar suporte aos filhos (como por exemplo a ida ao futebol, ao ballet, etc.), os transportes (in)existentes, etc. Planear com antecedência dois dias (em diferentes horários) por semana, por exemplo quinta (ou sexta) e sábado, em que existiria sempre uma iniciativa cultural, uma peça, um filme, um recital, uma pequena intervenção, um soberbo espetáculo, sempre na cidade, sempre no concelho, em lugares públicos e de acesso público. As quintas (ou sextas) e os sábados culturais em Silves para todos. Divulgar os eventos como um todo e não caso a caso, a diferentes grupos sociais da comunidade, com envolvimento de parceiros culturais, agentes de divulgação das iniciativas culturais no seio da comunidade. Monitorizar as iniciativas, os horários, os públicos, etc. Penso que nada disto é delineado, nem executado. As iniciativas, boas iniciativas, acontecem quando acontecem, sem regularidade, sem planeamento nem estratégia, sem uma lógica cultural de criação de públicos e de futuros profissionais (sejam da música, do teatro, do cinema, das artes plásticas, da dança, etc.).
Lamento, mas assim não se criam públicos, apenas temos as casas cheias ou lotadas (por vezes em projetos elitistas de difícil acesso, pouco próprios para uma autarquia de esquerda) naqueles eventos que, pela sua natureza, são muito acima da média (ou afastam o cidadão comum e atraem as elites em espaços reservados e delimitados), mas também que importam, em termos financeiros, muito aos promotores, neste caso à autarquia, portanto a todos nós, ou a outras entidades públicas. É preciso gastar, mas gastar em função da criação de públicos interventores assumindo duas premissas: desenvolver o local, nomeadamente dando voz aos locais, e trazer, até nós, aquilo que de melhor se faz em Portugal, nas diferentes áreas artísticas.
Bom regresso à cultura.








