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Opinião

Veraneio

António Guerreiro
Última Atualização: 2021/Set/Sáb
António Guerreiro
5 anos atrás
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O verão, para mim e, provavelmente, para todos, é um tempo marcado por outras rotinas. Não estou, propositadamente, a dizer que é tempo de férias, porque, como é expectável, numa região como a nossa, o verão é um tempo de trabalho para muita da população algarvia. Não descortinando qualquer relação de casualidade, o verão e, principalmente, o mês de agosto, é sempre, no que me diz respeito, uma época de alguma intranquilidade, aparentemente absurda, dado que, durante toda a minha vida, estou de férias em relação à totalidade ou à parcialidade das rotinas do resto do ano. Inexplicavelmente, ou talvez não, os dias de agosto geram, no meu ser, algumas tensões por sentir que não vivo (nem nunca vivi) o que deveria hipoteticamente viver neste período de veraneio.

Portanto, a tranquilidade que deveria usufruir neste período balnear, propício a ócios, não está verdadeiramente presente no meu dia a dia (deste misterioso mês de agosto). Talvez, por nunca ter ido de férias, neste período, ao contrário do que acontece com uma parte significativa dos portugueses. Enquanto jovem adolescente e adulto, sempre trabalhei no período de férias.

Após o início da atividade profissional, como dizemos, por piada, este ano vou de férias para o Algarve. E neste ano, aconteceu exatamente o mesmo, fiquei de férias no Algarve, concretamente em Silves.

Umas férias igualmente intranquilas que transformei (tentei), em alguns momentos, num descanso tranquilo, com sabor ao tempo do estio. Numa das noites fui, sem máquina fotográfica, ao torneio medieval, apreciar as lides de quatro destemidos cavaleiros. A propositada ausência da máquina (e de qualquer outro objeto tecnológico) possibilitou o usufruir, na plenitude do ser e do estar, do espetáculo de cavalaria. A imitação dos torneios medievais, histórias de amor e de cavaleiros, retratados igualmente pelo filme Coração de Cavaleiro (A Knight’s Tale), de Brian Helgeland, são o propósito destes eventos, não existindo, contudo, a grandeza e a beleza das cuidadas representações cinematográficas. Por falar em romances cinematográficos, descobri, casualmente, num dos canais de televisão, um filme cativante, com uma sublime banda sonora, a adaptação cinematográfica do romance, de André Aciman, Chama-me pelo Teu Nome (Call Me by Your Name), por Luca Guadagnino.

Noutra noite, com o mesmo preparo, isto é, sem a máquina de retratos, fui ao espetáculo Noites do Al Andalus, no castelo. A máquina, sempre presente nas noites da feira medieval, gerava, em mim, a necessidade de ser artista, de conseguir aquela imagem ainda não vista, apreciando a cena através do pequeno visor do utensílio tecnológico. A liberdade da ausência do visor originou um olhar inteiro para o espetáculo e um usufruto da sua totalidade, gerando alguma idealização da liberdade (acompanhada de sérias dificuldades) destes artistas, particularmente dos das artes circenses.

Para completar o mês de agosto, ainda vivi, novamente sem artefactos tecnológicos, um concerto de Jazz, na zona ribeirinha da cidade, com um duo de saxofone tenor (Luís Miguel) e piano (Alexandre Dahmen). Apesar da minha constante intranquilidade no mês de agosto, ainda consegui, sem sair da cidade, alguns momentos tranquilos de verão.
Antevejo um final de setembro político tranquilo, sem significativas novidades.

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PorAntónio Guerreiro
Natural de Silves, nascido em 1962, é doutor em Educação Matemática, professor e diretor da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve. Os seus interesses atuais nos tempos livres são a escrita, a leitura e a fotografia.
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