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Opinião

Silêncios

António Guerreiro
Última Atualização: 2020/Mai/Seg
António Guerreiro
6 anos atrás
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Este silêncio, alimentado pelos sons primaveris, há muito que não era escutado nos parques e nas ruas das cidades, nomeadamente na nossa cidade, para além dos quentes domingos de verão. Bem sei que entristece ver as ruas ainda mais desertas de gentes do que na normalidade dos dias, mas em contrapartida cresce um sentimento de humanidade, em todos nós, numa conjugação entre os sons vivos da natureza (até o vento tem um som mais audível) e a presença renovada (num possível engano dos meus olhos míopes) dos seres humanos.

Ao fazer pequenos percursos pela cidade, encontro gente em silêncio como se estivessem numa permanente oração. Não rezam em agradecimento ou em tormenta, para pedir graças, apenas silenciam as palavras desnecessárias e sobejamente gastas e, numa atualizada atitude, trocam o linguajar pelo sorriso e por palavras carregadas de sentido, mesmo que seja uma simples saudação diária de bom dia ou de boa tarde, num seguro distanciamento social.

Os mais atentos dirão «Que sorriso?», quando ocultamos a boca e grande parte do rosto com uma máscara, tradicionalmente opaca. Este sorriso, que reporto, está no olhar e no coração e, naturalmente, no rosto encoberto por esta anti-mascarilha, que tapa o rosto e deixa os olhos expostos, ao contrário das tradicionais mascarilhas, que ofuscam os olhos e a nossa identidade. Esta anti-mascarilha realça o que somos, a nossa identidade refletida no olhar, a nossa identidade a descoberto pelos nossos olhos.

A normalidade da máscara, em diferentes formatos e em distintas cores, vai roubar o sorriso, mas realçar o olhar, mesmo que tenhamos tendência para baixar os olhos na presença dos outros, mas espero que não aguce a mesquinhez, dos homens e das mulheres, transformando a eventual perda de rendimentos num aumento do preconceito em relação aos outros, em relação aos desconhecidos.
Já sabemos, porque ainda experienciámos muito recentemente, que, em tempos de crise, nascem as verdadeiras fábulas, deste nosso tempo, sobre os montantes auferidos, através dos apoios sociais, por migrantes, por minorias étnicas e por outros desfavorecidos da fortuna. Apesar da pandemia, a mesquinhez em estado puro pode andar por aí, nas ações de alguns, espero que em número substancialmente reduzido, e no pensamento de outros, igualmente, espero, em reduzido número, capazes de estorvar o nosso olhar.

Para isso, apesar da máscara, fica a náusea, fica a aversão.

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PorAntónio Guerreiro
Natural de Silves, nascido em 1962, é doutor em Educação Matemática, professor e diretor da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve. Os seus interesses atuais nos tempos livres são a escrita, a leitura e a fotografia.
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