INVENTÁRIO
“Inventário dum caminho – que estas mãos compreendem, que os olhos sublinham, legível aos pés.
Supérfluo o vestuário, o homem respira – um tronco e a terra aberta em palma.
Maciço e transparente, tudo o penetra e tudo se absorve e se transmite na ligeireza vasta.
A resposta seria um sorriso – a simpatia de uma respiração fraterna.
O rosto na amplitude – reconquista a sua dimensão generosa.
Não há música, mas o que se vê é excessivo e ondula na imobilidade.
Um galo canta do fundo do horizonte, à flor da terra, em nós mesmos.”
Inventário, de António Ramos Rosa
Pueril? Fútil? Banal? Ingénuo?
Para mim, não. Esta é a essência da Humanidade, depois engolida e triturada pela sociedade e pela tecnologia que vai espartilhando e sufocando cada um de nós.
Vivemos tempos difíceis, impensáveis há poucas semanas. A sociedade, tal como a conhecemos, está, mais uma vez, a ser colocada em cheque, a ser abalada por dentro, através de cada ser humano. Não é um tsunami que ceifa vidas de uma só vez, não é um vulcão que nos soterra a todos por igual, é um vírus que entra no nosso corpo e que nos asfixia por dentro.
Mas milhares sobrevivem-lhe e milhões “apenas” ouvem falar dele, na protecção de suas casas.
Então, podemos reflectir.
Podemos, não todos, claro, porque somos diferentes, mas muitos de nós, reflectir sobre como seremos mais felizes ou, pelo menos, como poderemos estar mais em paz connosco e com os que nos cercam. Podemos reflectir sobre, se sobrevivermos, como viveremos o resto dos dias das nossas existências.
Vamos continuar na correria fútil do trabalho para adquirir um falso consolo financeiro (quando em excesso, naturalmente, pois todos temos de pagar contas) ou vamos procurar escutar a nossa essência? Vamos continuar a educar para o consumo desenfreado ou vamos educar para o bom senso, para o conhecimento, para um conforto que abrace também a bondade e a solidariedade social? Vamos continuar a deixar-nos ser comandados por quem protege, preferencialmente, os interesses financeiros ou vamos participar mais, e finalmente, na medida das nossas possibilidades, no interesse público, colocando verdadeiramente o dinheiro ao serviço do bem-estar geral das comunidades?
É minha convicção que nos encontramos num momento privilegiado (estamos em casa, sem poder sair) para todos nós fazermos o nosso próprio inventário. Do meu, fará sempre parte esta frase:
“Um galo canta do fundo do horizonte, à flor da terra, em nós mesmos.”
Fiquem bem ! Saúde !
Texto de Paula Villares Pires









