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Opinião

Retratos

António Guerreiro
Última Atualização: 2020/Mar/Seg
António Guerreiro
6 anos atrás
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Habituei-me a ver na parede de casa, uma fotografia antiga da minha mãe e da minha tia Elvira, aquelas fotos só com o busto das duas mulheres, mas não tinha ideia de que a referida foto era mais velha do que eu. Nascemos no mesmo ano, mil novecentos e sessenta e dois, mas certamente em meses diferentes e ela, a fotografia, nasceu primeiro, pois eu nasci quase no final desse ano. Esta foto, de duas das irmãs, associei-a a uma outra foto, minha e do meu irmão mais velho, naturalmente mais recente, mas ainda assim bastante antiga, provavelmente eu teria no máximo uns seis anos e ele ainda não teria dois anos de idade.

Lá está ele (que sou eu) com aquelas historiazinhas parvas, pensam os meus estimados leitores, mas o que mais me questiona é que a foto das irmãs tem no canto inferior direito uma referência a um nome, provavelmente, o fotógrafo ou o laboratório fotográfico, e uma direção de Lisboa, acompanhada do ano de produção. Aqui está o mistério, terá sido esta foto apenas produzida em Lisboa ou o acto (como se escrevia na época) de retratar as retratadas terá acontecido também na capital.
Acredito que não, admito que o retrato tenha ocorrido no Algarve e que a sua produção em Lisboa, até porque a qualidade da impressão é assinalável, pois continua em muito bom estado, se imaginarmos que a fotografia estará a fazer cinquenta e oito anos e ainda está em ótimas condições. Não posso ter memórias sobre o momento desta foto, mas igualmente não tenho memória sobre a outra em que estou com o meu irmão, em idade pré-escolar, isto é, antes da idade escolar, antes de frequentar a escola primária de Silves.

Sei que sou eu e que foi tirada na porta lateral da sé da cidade que dá acesso à sacristia, uma porta almofadada. E sei, porque me transmitiram essa informação, que se trata de uma foto tirada aquando do baptismo (escrita da época) do meu irmão Raul.
Consigo reconhecer os protagonistas das minhas fotos antigas, mas só sou capaz de identificar em contexto aquelas em que já sou um adolescente, só a partir dessas é que verdadeira sei reconstruir o vivido. Fico a pensar, se assim é, se não consigo recriar as vivências das fotos em que era criança, quando é que comecei a verdadeiramente guardar as minhas memórias? Será que não gravamos as memórias de felicidade? Não são muitas as minhas fotos antigas, por isso cada uma delas constitui uma descoberta, uma reflexão.

Hoje, a banalidade das imagens, pelo menos a abusiva produção de imagens de cada um de nós, retrai-me e raramente me retrato, apesar de, em distintas circunstâncias, ser deficientemente e abundantemente retratado.

Olhando de novo para as minhas fotos, só tenho um verdadeiro retrato, a foto inicial, tinha eu dez meses de idade.

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PorAntónio Guerreiro
Natural de Silves, nascido em 1962, é doutor em Educação Matemática, professor e diretor da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve. Os seus interesses atuais nos tempos livres são a escrita, a leitura e a fotografia.
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