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Opinião

Os ruídos da história

Rocha de Sousa
Última Atualização: 2016/Jan/Qui
Rocha de Sousa
10 anos atrás
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Quem está hoje na Síria, nas zonas queimadas, entre ruínas onde moram os últimos orfãos, pode eventualmente achar carros a bater terreno e obter boleia, chegando ao norte do Iraque na outra madrugada. Há zonas que se enchem de figuras com roupas aparentemente regulares, abivacando em grande algazarra. Faiscando. Mas nada é fácil, mesmo que transitoriamente, e estes fantasmas acabam por ser forçados a limpar lamas sangrentas, restos de corpos, lixo de comidas inclassificadas, talvez como patéticas simulações da pintura de Miodrag Djuric, sobretudo em “Grande plage bleue”. Os sulcos da morte são constantes, perante a corrida dos guerreiros selvagens, terroristas do século XXI, e as cidades perdidas num novo deserto, animadas por percepções em travelling, ruas cheias de cadáveres, entre casos de homens ajoelhados, congelados para sempre, a conviver com bocados de animais semelhantes ao bicho da “Guernica”.
Estas palavras, encontradas ao acaso da recente história de uma guerra bem próxima, carreada naquela área e um pouco por atentados dispersos, incluindo a Europa, tem no grupo Daehs o seu grande intérprete. A França foi fustigada em Novembro, no centro de Paris, por agentes daquela raiz, e tomou, de imediato, medidas de retaliação. Todos vimos, a comunicação global oferece-nos, a cada minuto, todo o horror e também a eventual beleza das nossas escolhas.

As notas descritivas aqui alinhadas pertencem, em cima, a um livro sobre a guerra do Daesh na zona síria e no Iraque. Parece longe. Parece memória histórica. Mas está a acontecer e envolve gente nova, recrutada a ocidente, incluindo nove portugueses. Esse apelo, que envolve escolhas tão drásticas, não deixa de nos conduzir à perplexidade. Ao lermos os planos da acção terrorista aqui tratada por brevíssimas imagens em escrita, cogitámos mais: no seio da maior das barbaridades, os chefes têm um plano, na ideia da reconquista das antigas áreas onde os árabes forjaram beleza e trabalho (no Algarve, para não ir mais longe), o que nos permite imaginar, sem certeza nem quando, grupos de gente armada chacinando as vidas da nossa gente ou acorrentando-a (em vez dos animais) às velhas noras, invenção dos seus antepassados.

Pode não acontecer. Mas a Europa está em guerra com o Daesh, seguida pela Rússia e por outros países. Portugal, na “rectaguarda”, parece poupado, embora também esteja a receber um importante grupo de refugiados vindos dolorosamente da Síria, acossados pela guerra, com perda integral de bens e familiares. Somos um país equivocamente da margem da Europa, “periférico”, mas o oceano ainda nos protege, se nos lembrarmos da nossa história e da nossa expansão. Seja como for, o mundo vive, global e regionalmente, um desastre principal.

É preciso que os outros, cegos pela religião equivocada, degolando falsos inimigos e fustigando as pobres gentes ainda apegadas às raízes da terra, sejam ao menos levados ao entendimento da grandeza laica da vida, estigma de um Universo mal conhecido mas que não é apenas casa de Deus, é sobretudo lugar civilizacional da humanidade.

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PorRocha de Sousa
Natural de Silves. Professor Universitário ( aposentado) pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, onde foi docente. Membro da Academia Nacional de Belas Artes. Com larga atividade artística em vários campos, da pintura, ao cinema, do vídeo à literatura, Participou em dezenas de exposições, em séries de arte para a RTP, tem publicadas vários livros e é colaborador do Jornal de Letras.
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1 comentário
  • João Martins diz:
    13 de Janeiro, 2016 às 15:06

    Pontos estratégicos no globo. A ganância do dinheiro. A força dos poderosos a provocar todas estas barbaridades…

    Responder

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