O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) recuou na sua decisão de substituir, a partir de dia 1 de junho, a equipa técnica do CNRLI – Centro Nacional de Reprodução do Lince Ibérico, localizado no concelho de Silves.
Em comunicado, o ICNF informa que adjudicou, na passada sexta-feira, dia 29 de maio “uma aquisição de serviços à atual empresa gestora do Centro Nacional de Reprodução do Lince-ibérico (CNRLI) tendo em vista a operacionalização e a gestão técnico-científica do CNRLI, do Complexo de Treino e Recuperação do Lince-Ibérico (CTRLI) e do apoio de campo associado ao Programa de Conservação e Reintrodução da espécie em Portugal.”
O contrato terá uma duração de 14 meses, e “permitirá assegurar a continuidade das operações num período considerado particularmente relevante para o bem-estar e acompanhamento das crias que venham a nascer em 2027, até atingirem uma fase de maior autonomia”.
“Nesta contratação está adicionalmente incluída a elaboração de uma proposta de modelo de gestão do Centro”, adianta o ICNF que afirma o seu “compromisso absoluto com a conservação do lince-ibérico em Portugal e com a continuidade do Programa de Reprodução e Reintrodução da espécie.”
“Este compromisso materializa-se pela ação do ICNF e de todos os parceiros nacionais e internacionais, na estratégia em execução de conservação do lince-ibérico, mas também com o novo Plano de Ação para a Conservação do Lince-ibérico em Portugal (PACLIP 2026-2030), e com a renovação da parceria com a empresa Águas do Algarve, que garante financiamento ao projeto até 2037”.
A polémica
Recorde-se que a decisão do ICNF de afastar a equipa técnica responsável pelo CNRLI desde a sua fundação, há 16 anos atrás, foi tornada pública a meio do mês de maio quando se soube que este organismo pretendia passar a gerir o CNRLI a partir de 1 de junho, sob a coordenação de Alexandra Pereira, antiga diretora do Departamento do Bem-Estar dos Animais de Companhia do ICNF.
A notícia que o ICNF pretendia afastar a equipa do CNRIL e o seu diretor, Rodrigo Serra, coordenador do Programa Ibérico de Conservação Ex Situ para o Lince-Ibérico e responsável técnico pela operação do CNRLI caiu que nem uma bomba junto das associações ligadas ao meio ambiente e aos animais, que temiam que esta mudança, feita sem qualquer período de transição, e sem qualquer explicação oficial, colocasse em causa todo o programa de recuperação do lince ibérico.
Em comunicado, a equipa do CNRLI dizia reconhecer que “cabe ao Estado português definir o modelo de gestão dos seus programas de conservação da natureza, mas considerava que “uma operação desta complexidade exige uma transição técnica, legal e operacionalmente segura, devidamente articulada com os parceiros ibéricos envolvidos no programa de conservação do lince-ibérico nos últimos 16 anos, com sucesso comprovado. “
E Rodrigo Serra acrescentava: “ O lince-ibérico em Portugal foi recuperado através de décadas de cooperação científica, técnica e institucional entre Portugal e Espanha. Estamos a falar de uma operação altamente especializada, permanente e sensível, que não pode ser substituída de um dia para o outro sem um plano robusto de transição”.
Além disso, estavam em causa os postos de trabalho de “14 profissionais altamente especializados, alguns com mais de uma década de dedicação contínua ao programa de conservação do lince-ibérico em Portugal. Veterinários, tratadores, técnicos e especialistas que acumularam conhecimento único sobre comportamento, reprodução, maneio e recuperação da espécie” e que seriam substituídos por pessoas que não teriam experiência na área.

Estas e outras preocupações foram manifestadas, de forma unânime, não só pelas associações ambientalistas, mas também pelos parceiros espanhóis, chegando à Assembleia da República onde várias forças políticas pediram explicações ao Governo e à ministra do Ambiente. Esta, começou por não querer pronunciar-se sobre a questão que considerou um assunto interno do ICNF, mas, perante o coro de protestos, acabou por se reunir com esse organismo, para o qual tem sido falado também um processo de reestruturação, a ter lugar em breve.
Para já, durante 14 meses, a equipa do CNRLI mantém-se em funções, num processo que não está completamente encerrado. Com a sua contribuição, o Programa Ibérico de Conservação Ex Situ do Lince-Ibérico, desenvolvido entre Portugal e Espanha, representa uma das mais relevantes histórias de sucesso da conservação da natureza na Europa.
Quando o único centro em Portugal foi inaugurado, restavam menos de 150 linces-ibéricos em todo o mundo. Até hoje, nasceram mais de 180 linces-ibéricos só no centro de Silves e mais de uma centena de animais foram preparados para reintrodução na natureza.
O centro tornou-se uma estrutura central do programa ibérico de reprodução e recuperação da espécie. Portugal passou de um cenário de extinção funcional do lince-ibérico para a existência de uma população reprodutora em meio natural.




