Marco na paisagem, durante séculos, a Cruz Grande, em São Bartolomeu de Messines foi menosprezada há cerca de 20 anos, aquando a última intervenção no jardim, junto à estátua João de Deus. Desde então continua escondida e dissimulada por entre a vegetação, como já aqui lembrámos em 2015.
Não se sabe ao certo quando foi erecto o primeiro cruzeiro no local, já ali se encontrava em meados do século XIX, ocupando por esse tempo uma posição central num vasto largo, no qual se desenvolvia o caminho, conforme consta na planta do projeto da estrada macadamizada para Silves, datado de 1881.
Por esses anos o aglomerado urbano terminava logo após o largo da igreja, ainda antes do prédio de arte nova, conhecido pelos Móveis Mourinho, construído por Joaquim Tomé de Sousa Reis Remechido, em 1891. O cruzeiro, ladeado de hortas e terras de sequeiro, antecedia assim a entrada na aldeia.
Em 1906, a Câmara de Silves, em resposta à Real Associação de Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses, indicou a Cruz Grande, juntamente com a Sé, o Castelo e a Cruz de Portugal, em Silves, como os principais monumentos do concelho. Todavia, o cruzeiro desse tempo não chegou aos nossos dias, foi partido num ato de vandalismo, no fim dos anos de 1920. As suspeitas recaíram sobre o anarquista messinense José Correia Pires, que as refutaria, ao que parece com razão, lembrando anos mais tarde o acontecimento nas suas “Memórias de um Prisioneiro do Tarrafal”: “À saída de Messines para o lado Poente há uma cruz, não sei desde quando; chamam-lhe cruz grande porque realmente é grande e está assente sobre um palanque de uns seis ou sete metros de superfície (…)”.

A cruz terá sido reparada, mas logo partida em 1948. Manuel Serafim Monteiro ocupava então a presidência da Junta de Freguesia e foi ele quem, a 7 de Maio, oficiava ao presidente da Câmara de Silves, Salvador Gomes Vilarinho, a dar conta do sucedido: «vimos comunicar a V. Exa., que se encontra derrubado e partido, de há pouco, o CRUZEIRO existente à entrada desta povoação». Quanto a responsáveis: «constando-nos terem sido autores daquele estrago, os operários que aqui andam montando os cabos da rede eléctrica». Manuel Monteiro pedia e lembrava que «muito gratos ficariam todos os messinenses», se o presidente e a edilidade o «mandasse restaurá-lo, visto que a incógnita da data da sua fixação naquele local, onde os nossos avoengos sempre o conheceram, o integram na história de Messines, como padrão simbólico dos costumes e sentimentos profundamente religiosos deste povo».

O fornecimento da energia foi inaugurado a 28 de Junho de 1948. Quanto ao cruzeiro seriam necessários mais alguns anos, sendo colocado na primavera de 1954, já na presidência da autarquia de Luís Gordinho Moreira, como o jornal «Folha do Domingo» deu nota, na edição de 4 de abril, daquele ano: «Foi com geral agrado que a Câmara Municipal de Silves resolveu mandar colocar à entrada de Messines um cruzeiro grande e formoso, precisamente no local onde há anos existiu o antigo cruzeiro que desapareceu partido aos pedaços».
O crescimento urbano da povoação aglutinou o monumento, de tal forma que hoje se encontra quase no centro da vila.
Com a morte recente de uma palmeira situada nas imediações do cruzeiro eis a oportunidade de o relocalizar, justamente para o canteiro até agora ocupado por aquela árvore, dotando-o em simultâneo de um alto plinto que o valorize e dignifique (utilizando, por exemplo, a rocha grés de Silves).
Pelo destaque que sempre teve na paisagem, foram muitos os messinenses de diferentes gerações que pousaram junto dele, como evidenciam as duas fotografias que se tornam a publicar, uma de 1938 (com a primitiva Cruz partida) e outra dos anos de 1960 (com a atual). A Cruz Grande constitui um marco histórico na vila, mas que carece de dignidade e relevo que importa corrigir, esteja a Câmara de Silves, agora presidida pela Eng. Luísa Conduto Luís, à altura das suas responsabilidades.
Aurélio Nuno Cabrita
As fotografias antigas foram cedidas por familiares de Aura Ramos Calado e por Gilberto Valério (Serafim Ambrósio Neto), a quem novamente agradecemos.
Correção: Na edição anterior, em «A Via Sacra em azulejos, de João José Gonçalves, descerrada na Igreja Matriz de S. B. de Messines», o nome do ceramista saiu trocado, facto que lamentamos e pelo qual pedimos as nossas desculpas, o seu nome é José João Gonçalves, fica feita a correção.







