A compra recente da Fábrica do Inglês em Silves, por duas promotoras imobiliárias, abre finalmente novas perspetivas para o Museu da Cortiça, um espaço icónico da cidade, do concelho e do país. O seu acervo museológico, associado ao precioso arquivo, depositado à guarda do Arquivo Distrital de Faro, encerra a história da indústria corticeira em Portugal, em geral, e da cidade Silves e do Algarve, em particular.
Fechado em 2009, em consequência da falência do então proprietário, o Museu conheceu, em 2022, mais um rude golpe, o falecimento inesperado do seu diretor, o Prof. Manuel Ramos, com 64 anos de idade. Silvense de nascimento, dedicou muito tempo da sua vida à recolha de memórias e conhecimentos dos antigos corticeiros, que amiúde entrevistou.
Ora, é intenção dos atuais proprietários, segundo a imprensa, reabrir aquele espaço museológico nos próximos meses. Todavia, se nada temos contra esse desejo e apenas podemos saudar tão louvável iniciativa, não deixamos de lembrar que um museu, na verdadeira aceção do termo, é hoje mais que um espaço de exibição de objetos e peças. O ICOM (International Council of Museus) – a maior organização internacional de museus e profissionais de museus dedicada à preservação e divulgação do património natural e cultural mundial, do presente e do futuro, tangível e intangível – define museu como: «uma instituição permanente, sem fins lucrativos e ao serviço da sociedade, que pesquisa, coleciona, conserva, interpreta e expõe o património material e imaterial». Nesta sequência, e por outras palavras, um museu tem de ter um diretor e um quadro de pessoal que fomente a pesquisa, a investigação do seu acervo e a partilha desse conhecimento, desde logo com os silvenses, depois com os turistas, mas também com a comunidade científica e do saber.
Aliás, voltando à definição de museu pelo ICOM, ela é complementada: «abertos ao público, acessíveis e inclusivos, os museus fomentam a diversidade e a sustentabilidade. Com a participação das comunidades, os museus funcionam e comunicam de forma ética e profissional, proporcionando experiências diversas para educação, fruição, reflexão e partilha de conhecimento».
Por outro lado, a Lei n.º 47/2004, de 19 de agosto, ou seja, a Lei-Quadro dos Museus Portugueses, estabelece o regime jurídico e as funções essenciais dos museus (estudo, incorporação, inventário, conservação, segurança, interpretação e educação), criando ainda a Rede Portuguesa de Museus (RPM), e definindo o direito de preferência dos museus na aquisição de bens culturais em leilões ou vendas judiciais, visando a proteção e valorização do património cultural português.
Face ao exposto, tão ou mais importante que abrir aquele espaço à fruição pública é nomear desde logo um diretor, o qual deverá ter conhecimentos não só de conservação e preservação daquele espólio industrial, como de investigação e partilha de informação, quer com a comunidade científica, quer com os cidadãos em geral. No caso em apreço, acreditamos que a escolha deverá recair, num primeiro momento, sobre o meio científico, nomeadamente académico, isto é, num docente universitário, ligado à história industrial em Portugal. Silves precisa, depois de tantos anos fechado, de um verdadeiro Museu da Cortiça, e não de um simples mostruário de máquinas e objetos, com uma museografia, decerto, já desatualizada.
O estudo do espólio do Museu da Cortiça, do seu arquivo, conjuntamente com a informação recolhida pelo seu antigo diretor na comunidade, certamente à guarda da sua família, podem colocar novamente o Museu da Cortiça na vanguarda dos museus europeus, a que a atribuição da distinção de melhor Museu Industrial Europeu em 2001 é exemplo e deverá constituir estímulo e ponto de partida.
Voltamos a saudar a intenção do novo proprietário da Fábrica do Inglês na abertura rápida do espaço, mas uma abertura perfeita seria, num primeiro momento, com alguém que volte a colocá-lo como um exemplo na museografia europeia e tal só será possível com um acreditado diretor, apoiado por uma competente equipa técnica. A acontecer, o atual proprietário estará duplamente de parabéns e Silves guardará o seu nome por entre os mais importantes da história da cidade.
A todos os leitores um Excelente 2026.






