É curioso que, cerca de 50 anos após a Revolução de 25 de Abril de 1974, a direita e a extrema-direita — entre saudosistas do antigo regime e neofascistas — continuem a celebrar aquilo que, na verdade, não aconteceu a 25 de Novembro de 1975. Procurar estabelecer uma equivalência entre as duas datas é exercício de fantasia, sem suporte nos factos nem no sentir profundo do povo português. Basta observar um contraste simples: enquanto o 25 de Abril é comemorado em todo o país, com manifestações massivas que enchem a Avenida da Liberdade com dezenas de milhares de pessoas, os promotores das comemorações do 25 de Novembro fazem-no entre quatro paredes, incapazes de demonstrar força real nas ruas. Não restam dúvidas de que existe um esforço de reescrever a história e de menorizar a revolução libertadora de Abril.
O que aconteceu?
No 25 de Novembro não houve qualquer tentativa de golpe promovida pela esquerda, nem muito menos pelo PCP — o alvo preferencial de sempre. As movimentações militares circunscreveram-se à região de Lisboa e não existiu qualquer centro de comando dirigido pela esquerda e preparado para desencadear um confronto militar. Na noite de 24 para 25 de Novembro, a Direção do PCP chegou mesmo a orientar as suas principais organizações para evitarem envolvimento em aventuras esquerdistas ou ações militares precipitadas. Nessa mesma noite, Álvaro Cunhal, mantendo a habitual relação institucional com o Presidente da República, Costa Gomes, assegurou-lhe, desmentindo especulações em curso, que o PCP não estava envolvido em qualquer iniciativa militar e insistiu na necessidade de uma solução política, como vinha defendendo desde o verão. Os testemunhos de Costa Gomes, Melo Antunes, Vasco Lourenço, Ramalho Eanes ou de Pacheco Pereira, Jaime Nogueira Pinto e Irene Pimentel confirmam que não houve qualquer tentativa de golpe pelo PCP. Jaime Neves, ele próprio, confessou que o 25 de Novembro foi, antes, um golpe contra o PCP (Revista Indy, 21-11-1997).
A operação do 25 de Novembro
Na realidade, o que existiu foi um plano militar preparado com meses de antecedência pelo Grupo dos Nove — moderados, próximo do PS — com o apoio da direita e extrema-direita. Aguardavam apenas o momento certo para pôr fim à situação político-militar que atribuíam ao PCP, afastar a esquerda militar, dissolver o MFA e travar a dinâmica revolucionária.
O pretexto surgiu com a ação dos paraquedistas de Tancos, que, convencidos de que teriam o apoio do COPCON (Otelo) e dos fuzileiros, ocuparam na madrugada do dia 25 as bases aéreas de Tancos, Monte Real e Montijo, bem como o comando da 1.ª Região Aérea, em Monsanto. Exigiam a demissão do CEMFA, depois de 1200 soldados terem sido passados à reserva em 16 de novembro, numa decisão provocatória. Em apoio dessas reivindicações, o RALIS ocupou posições estratégicas nos acessos à autoestrada do Norte e ao aeroporto; a PM tomou a Emissora Nacional e a EPAM ocupou a televisão. A força de intervenção comandada por Ramalho Eanes pôs termo à contestação. Houve três mortos — as únicas baixas operacionais. 118 militares e civis foram detidos e foram emitidos mandados de captura contra membros da LUAR, PRP, MES e FSP. É revelador que ao longo de 1975, no chamado PREC, fosse o PCP quem pagasse politicamente pelas ações aventureiras e irresponsáveis da extrema-esquerda.
O terrorismo de extrema-direita no verão quente
O ano de 1975 ficou igualmente marcado pelo terrorismo da extrema-direita promovido pelo ELP e o MDLP. Este último, dirigido por Spínola e operacionalizado por Alpoim Galvão, que semeou o terror, a destruição e a morte no norte do país. A vaga de atentados e pilhagens foi significativa: só em julho, 86 ações terroristas, incluindo 33 ataques a Centros de Trabalho do PCP; em agosto, 153 ações, com a destruição de 55 sedes do PCP e 25 do MDP-CDE. A onda bombista prolongou-se até 1976, com 60 atentados em janeiro. A 2 de Abril, o Padre Max foi assassinado. Na verdade, a extrema-direita não ficou satisfeita com o desfecho do 25 de Novembro.
A direita e a extrema-direita não têm nada para celebrar no 25 de Novembro. O Major Melo Antunes declarou perante as câmaras da televisão, na noite de 26 de Novembro: “Eu quero dizer neste momento, e considero muito importante, que a participação do PCP na construção do socialismo é indispensável.” O processo de ilegalização e repressão do PCP, caiu por terra. O Presidente Costa Gomes não se demitiu. O PCP permaneceu no VI Governo Provisório, com um Ministro e seis secretários de Estado. O processo revolucionário prosseguiu. As liberdades e o regime democrático mantiveram-se. A Constituição da República foi aprovada e promulgada em 2 de Abril de 1976. Urge combater a falsificação da história recente. O 25 de Abril é uma data inigualável.



Tenho, por um lado, conhecimento de que, no Terra Ruiva, os comentários passam, previamente, pelo crivo da apreciação da Exmª. Direcção.
Por outro lado, embora respeitando integralmente outras visões, uma vez que vivemos num país, onde vigora a democracia, é no âmbito do direito ao contraditório e no franco debate de ideias que solicito a publicação do comentário seguinte, que aqui deixo.
“ Por vezes, dou comigo, procurando, em vão, compreender como, sendo a ideologia comunista o modelo ideal a seguir para terminar com a “exploração do homem pelo homem” – é tão poética esta expressão –, e abrir uma nova fase na história da humanidade, com a chegada da aurora das “manhãs cantantes”, não consigo compreender, dizia, como a China se viu obrigada a se abrir à tão diabolizada “Economia de Mercado” capitalista …
Do mesmo modo, não consigo entender como, sendo aquele sistema político-social tão perfeito, a URSS terminou, implodindo …
Como terceiro exemplo – poderia citar alguns outros mais –, pergunto-me como foi possível fazer descer tão baixo a dignidade humana de todo um povo, vítima de uma lavagem cerebral colectiva, o qual, sem qualquer motivo aparente, chora, à simples aparição do seu todo-poderoso líder, como nos mostram as lamentáveis e deprimentes cenas, vindas da Coreia do Norte, de uma população notoriamente infantilizada …
Tudo isto, sem falar dos cárceres políticos sempre prontos a receber os cidadãos que ousam cometer o “crime” de delito de opinião …
Como, por vezes, as contradições são tão evidentes …
Poderia desenvolver muito mais este meu modesto comentário, porém, irei ser muito telegráfico, sem, contudo, deixar de tecer duas ou três reflexões :
1 – O 25 de Abril não é propriedade de ninguém, designadamente, de qualquer formação partidária. Ele é apenas pertença do Povo Português, 25 de Abril, a cujo estertor final tive o privilégio de assistir, em primeira mão, no Largo do Carmo, naquela luminosa tarde de quinta-feira, em que corremos todos o sério risco de ser metralhados e transformados em carnificina, por um helicanhão, que nos sobrevoou, sendo que, porém, ninguém arredou pé, até à cedência do poder por Marcelo Caetano, refugiado no quartel do Carmo.
2 – Opostamente à verdade histórica, que alguns insistem em procurar deturpar, a finalidade do 25 de Novembro de 1975 foi, tão só, a de devolver aos Portugueses a pureza democrática do 25 de Abril e jamais um movimento contra este, tese sem qualquer suporte factual.
Afirmo-o, com a força testemunhal de quem assistiu e acompanhou, dia após dia, “in vivo”, à extrema radicalização ideológica partidária, num manifesto propósito de nos impor uma ditadura de sinal contrário à que nos tinha oprimido, por quase cinquenta anos.
Contradizer esta realidade, que testemunhei, é um pouco como contar histórias a meninos para adormecerem.
Obviamente – isto deve igualmente ser registado –, houve também excessos condenáveis da extrema-direita, que foram e são sempre de repudiar.”