Verão… Tempo de férias! Férias de repouso e de recreio. Aí estão elas. Há mesmo quem já as tenhas gozado, este ano, ou esteja neste momento no seu pleno desfrute.
Em tempos remotos ─ o tempo dos romanos ─ as férias eram os dias em que não se podia trabalhar, por prescrição religiosa. O Cristianismo adoptou essa regra, no tocante a domingos e dias santos. A própria palavra «férias» é de origem latina: feriae, fériarum─ que significava, e significa «dias feriados», ou seja, de festa religiosa, de descanso, dias interditos ao trabalho.
Nos dias de hoje ─ e desde há muito tempo ─ por «gozar férias» entende-se «fazer as malas» e partir. Com destino determinado e programa previamente estabelecido, ou ir à sorte, à descoberta de novas terras, pelo gosto de viajar e/ou acutilante curiosidade cultural.
Os tempos actuais (por muito que sejam do agrado daqueles que vivem bem) para a grande maioria dos portugueses não são propícios a grandes férias… e muito menos às antigas «férias grandes».
Agora, uma saltada ao Algarve, na época estival, para os que nasceram no antigo jardim das amendoeiras e não dispensam o voltar à terra que lhes foi berço, pelo menos, uma vez por ano; e para quem aprecia banhos de mar em praias de primeira qualidade, mas sem comparação com as familiares vilegiaturas passadas na Praia da Rocha, em Armação de Pêra, Albufeira ou Monte Gordo, quando os veraneantes se alojavam em casas particulares cujos locatários prescindiam do seu modesto conforto a troco de um parco pagamento destinado a atenuar as carências do inverno próximo.
Hoje, férias que sejam férias têm de ser passadas ─ gozadas ─ longe de casa, de preferência em digressão.
Espairecer é aquilo de que mais precisa quem vive «amarrado» a um trabalho rotineiro. Espairecer e repousar. Daí a busca temporária de outros lugares para passar uns dias ─ à beira-mar ou numas termas acolhedoras ─ para conhecer caras novas, conviver com outras pessoas. Fazer a tal mudança de ares de que falavam os antigos quando partiam de férias.
Na cidade grande (Lisboa, por exemplo), aí por Agosto ou Setembro, se alguém deixava de ser visto, na rua ou no bairro, surgia logo a pergunta: «Onde diabo se meteu fulano…que já não aparece, há dias»? ─ «O Lopes?…está p, rà terra! Foi de mudança de ares com a família» ─ respondia o Silva, que estava sempre bem informado.
Era assim que os amigos tomavam conhecimento do «privilégio» que alguns sortudos tinham de ir de férias para fora da Capital. Íam p,rà terra, os felizardos! Os familiares que lá tinham acolhiam-nos por duas ou três semanas.
Partiam de comboio ou de camioneta, arrastando as malas da roupa e dos utensílios de cozinha que lá na terra não havia, mais uma com prendas que levavam para obsequiar quem os recebia.
Os que não tinham «terra» ─ os alfacinhas de gema ─ aguentavam a canícula no «caldeirão» do bairro onde passavam o ano inteiro ─ quando muito com uma ou outra saltada à Costa da Caparica ou a Carcavelos.
«Precisamos de repouso, de mudar de ambiente» ─ proclamam aqueles que, chegando o dia, partem de férias, sedentos de sol e de mar… e de paródias nocturnas. Mas nem todos têm o mesmo objectivo: «Necessitamos de recuperar energias, de recarregar as baterias » ─ dizem aqueles que pensam mais em produtividade que em divertimentos extenuantes.
Só um amigo meu, pelo gosto da contradição, ─ que cultiva espirituosamente ─ costuma discordar: «Pois eu, quando vou de férias não é para descansar; é sim, para malhar… o que eu preciso é de abater esta barriga» ─ e diz isto, afagando o abdómen, por sinal bem proeminente.
Este gosto de partir anualmente, ao encontro de outros climas e de outras gentes, não é de hoje nem de ontem. É uma pulsão e uma prática muito antigas; uma tendência que se manteve através dos tempos. Já no séc. I antes de Cristo, o poeta Lucrécio, no seu poema «De Rerum Natura» (Da Natureza das Coisas) se refere à necessidade que os seus contemporâneos sentiam de mudar de lugar frequentemente.
No século XIX, porém, as aparatosas viagens de férias eram mais raras e muito mais dispendiosas que as dos nossos dias. As deliciosas deslocações, fossem elas a países da Europa ou às regiões mais exóticas do Globo, só estavam ao alcance da bolsa de raros viajantes. Os sedentários evadiam-se pela imaginação ─ ou passando os olhos pelos cartazes que publicitavam as férias de sonho ou lendo apaixonadamente os livros de Júlio Verne. O próprio autor de «Vinte Mil Léguas Submarinas», quando em conversa com os amigos, costumava dizer: «Sou o escritor favorito dos «pés de chumbo»
Curiosamente, foi um desses cartazes de propaganda turística expostos nas vitrinas dos boulevards de Paris, que deu a Júlio Verne a ideia para escrever o seu livro mais conhecido: «A Volta ao Mundo em 80 Dias»
Texto: Ezequiel Ferreira








